segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tudo pode acontecer


Um grande acerto na carreira do narrador João Guilherme do PFC (Premiere Futebol Clube) foi passar a fazer uso da expressão perfeita para o momento em que Obina recebe a bola durante uma partida do Flamengo.

“Lá vem Ibson, virou com Léo Moura, Léo investe no passe longo para Obina (!!!)... e agora: Tudo pode acontecer... Tudo pode acontecer...”. Sua sensibilidade esteve aguçada em algum momento e feita a narração desta forma, a expressão virou sua marca registrada. Obina é um jogador curiosíssimo. Afinal, plagiando o narrador, tudo pode acontecer quando ele pega na bola. O leque de possibilidades vai de um drible sensacional emendado de um golaço a um tropeço bisonho ou algo parecido. Ainda assim, me parece um atleta valiosíssimo para o Flamengo. Sempre marca na hora H, sobressai-se em decisões e, ainda que a grandíssima maioria discorde de mim, tem excelente visão de jogo para passar a bola e posicionar-se. Talvez seus principais defeitos sejam a pouca velocidade e a falta de precisão no cabeceio.




A invencibilidade do Flamengo pouco significa em termos de futuro na temporada. Mas um trunfo que a equipe já mostrou ter é a quantidade de jogadores. Há sempre excelentes peças de reposição no banco e isso pode mudar o rumo de partidas que se mostrem complicadas. Além disso, já é possível estabelecer mais algumas conclusões acerca do time:

1 – Zé Roberto chegou bem. No mínimo, é esforçado, quer jogo.
2 – Willians é promessa das boas.
3 – Jonatas joga demais. Só depende dele para ter uma carreira grandiosa.
4 – Jogador Everton irrita.
5 – Chega de Kléberson. Ninguém agüenta mais. Já deu.

No mais do futebol carioca, o destaque óbvio é Victor Simões. Pode fazer a diferença no campeonato.


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Apenas um comentário cinematográfico para fechar a postagem:

- “Night of the living dead” (A noite dos mortos vivos) de George Romero é o precursor dos filmes de Zumbi. O clássico de 1968 está disponível em DVD na Livraria da Travessa. Ainda que seja um trabalho notável, “Psycho” (Psicose) de Hitchcook se mostra bem mais genial, não somente em termos de elenco e direção, mas também em quesitos técnicos. Este é mais um exemplo da magnitude do trabalho do mestre Alfred. Afinal, “Psycho” é 8 anos mais velho que o filme de Romero.



Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)


sábado, 7 de fevereiro de 2009

The cinema show


Assisti recentemente, pela segunda vez, o premiado filme “Brokeback Mountain” de 2005. Senti-me pressionado a escrever sobre isso. A razão? A produção é uma pérola. É o tipo do filme que você assiste e pensa: “Nada deveria ser melhor. Está perfeito”. A começar pela performance de Heath Ledger que é assustadora (!!!). O cara encarna no personagem. Cada mínimo detalhe em seu olhar, em suas feições, na sua fala é representado de modo perfeito. A direção de Ang Lee é arrebatadora. A história é construída através das tomadas nas montanhas de forma sutil e harmoniosa. A partir do momento em que termina a estadia dos “cowboys” em “Brokeback”, o romance passa a ser contado “aos pulos”, ou seja, de anos em anos, o que, para o cinema, é algo muito difícil de ser feito sem que haja rupturas no rumo dos acontecimentos representados. Em muitos casos, fica parecendo uma concha de retalhos. Não em “Brokeback Mountain”. O andamento permanece sereno e intocável. Toda a obra é amarrada com maestria pela equipe. Trata-se de uma obra-prima. É um absurdo ter perdido o Oscar de melhor filme para o fraco “Crash” em 2006.

A cerimônia do Oscar 2009 será realizada no próximo dia 22 e, nesta última sexta-feira, dia 6, entrou em cartaz no Brasil uma produção que emplacou 5 indicações sendo 4 para ator e atriz principais e coadjuvantes. E já que estou em dia de babar ovo, lá vamos nós de novo.

“Doubt” (Dúvida, na tradução literal) é sensacional. Dos que vi até agora, o melhor filme de 2008 com folga. Ainda que muito de sua qualidade passe pelas performances irretocáveis de Meryl Streep, Philip-Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis, a construção da história e do clima tenso que se faz característico em cada cena são perfeitas. Os diálogos prendem o espectador de forma impressionante e cabe a este buscar em cada vírgula do que é dito indícios que possam acabar com a tal dúvida que envolve a culpa ou inocência de um padre.

Contudo, garanto: de nada adiantará essa investida...


Embalado pela felicidade de assistir a cinemas de qualidade (ainda que “Brokeback” tenha sido na minha TV LG de 20 polegadas e sem tela plana...), resolvi postar algumas listas de favoritos para que meus poucos leitores (além dos pais) possam conhecer melhor meus gostos pessoais. Serão elas: Top 10 para cinema; Top 10 para atores; Top 10 para atrizes; Top 10 para diretores. Por hoje, acho que está bom. Lembro que são escolhas de caráter pessoal, o que me permite, por exemplo (e apenas por exemplo), estabelecer a presença de "Anaconda" no Top de filmes.

TOP CINEMA:
1- American Beauty (Beleza Americana)
2- Seven (Seven, os 7 pecados capitais)
3- Alien (Alien, o 8° passageiro)
4- The Shawshank redemption (Um sonho de liberdade)
5- Good night and good luck (Boa noite e boa sorte)
5- Vertigo (Um corpo que cai)
6- The Bridges of Madison County (Pontes de Madison)
7- Chinatown
8- Brokeback mountain (O segredo de Brokeback mountain)
9- Titanic
10- Psycho
(Psicose)

Menção honrosa:
- The exorcist (O exorcista), um extraordinário clássico do terror.
- Halloween, assustador.
- Jaws (Tubarão), que só pela trilha já valeria.
- The departed (Os infiltrados), que já é um filme policial clássico.
- Matchpoint, cujo tema abordado é intrigante (a sorte, o azar, o acaso).
- Matrix, cheio de metáforas.
- Back to the future (De volta para o futuro), o melhor blockbuster de todos os tempos.
- WALL.E, uma animação imperdível.
- Doubt (Dúvida), o tempo o levará para meu Top 10.


TOP ATORES:
1- Kevin Spacey – pelo Lester Burnham de “American beauty”. A melhor atuação que já vi na história do cinema.
2- Heath Ledger – suas participações em “Brokeback mountain” e “Batman – o cavaleiro das trevas” são impecáveis.
3- Jack Nicholson – o cara.
4- Russel Crowe - por “American gangster”.
5- George Clooney – veja “Michael Clayton” (Conduta de risco) e “Burn after reading” (Queime depois de ler).
6- Sean Penn – cada personagem seu tem um ar diferente.
7- Tim Robins – por “Mistic river”
8- Al Pacino – O “Godfather” depois de Brando.
9- Morgan Freeman – apesar de seus personagens sempre terem características em comum, em alguns filmes, sua fisionomia e seu ar sereno caem como uma luva. Em “Seven” e “The shawshank redemption” está impecável.
10- Phillip Seymour Hoffman – veja “Capote” e “Doubt”.

Menção honrosa:
- Javier Bardem, pelos recentes trabalhos (“No country for old men” / “Vicky Cristina Barcelona”).
- Brad Pitt, não é Só bonitão... é fera na profissão.
- John Malkovich, pelo humor que incorpora em seus personagens.
- Anthony Hopkins, o Hannibal Lecter de “Silence of the lambs”.

TOP ATRIZES:
1- Meryl Streep – unanimidade.
2- Cate Blanchett – referência.
3- Judi Dench – dá uma aula em cada filme que trabalha.
4- Penelope Cruz – sempre rouba a cena nos filmes em que atua.
5- Naomi Watts – dá aula de representação em “Mullholand drive” (Cidade dos sonhos)
6- Kate Winslet – sempre atua com brilhantismo.
7- Helen Mirren – pareceu mais a rainha que a própria.
8- Nicole Kidman – veja “Dogville”.
9- Anne Hathaway – sempre precisa quanto ao tom que deve dar ao personagem.
10- Jodie Foster - pela detetive “caipira” Starling de “Silence of the lambs”

Menção honrosa:
- Kathy Bates, uma coadjuvante sempre perfeita (“Titanic” / “Revolutionary road”)

TOP DIRETORES:
1- Alfred Hitchcook - o mestre.
2- Roman Polansky - de “Chinatown” e “Rosemary’s baby”.
3- Francis Ford Coppola - “Godfather” (O poderoso chefão) e “Apocalipse now” são inesquecíveis.
4- David Fincher – “Seven” é uma obra-prima.
5- Steven Spielberg – pelo conjunto da obra.
6- Ridley Scott – “Alien” é uma aula de direção.
7- Sam Mendes – “American Beauty” leva todos os prêmios na minha academia.
8- Woody Allen – como Spielberg, pelo conjunto da obra
9- Clint Eastwood – realizador de muitas produções no estilo de excelente “Mistic river” (Sobre meninos e lobos)
10- James Cameron – “Titanic” é fantástico. Além disso, dirigiu a impecável continuação de “Alien”.

Menção honrosa:
- Ang Lee, por “Brokeback Mountain”.
- George Clooney, promessa para direção, por “Good night and good luck”


Rafael Leme Gonzalez (
rafael.leme@globo.com)


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Novos rumos estabelecidos por um cocô

Na tarde da última terça-feira, este que vos escreve encaminhava-se na direção de um cinema na Praia de Botafogo, acompanhado da namorada. Eis que um espécime de Columba livia, a ave popularmente conhecida como Pombo, pousou sobre um semáforo. Debaixo deste, caminhava o casal feliz rumo ao seu cineminha. Já dá pra imaginar o que aconteceu em seguida, certo?

Pois bem. O cocô daquele Pombo gerou uma imediata mudança de planos. Deixamos de ir para o cinema naquele instante e pusemo-nos a procurar uma loja que vendesse uma camiseta por um preço “bacana” – seria inviável prosseguir o passeio sem requerer a compra de uma blusa. Em seguida, efetuada a compra num shopping da região, resolvemos ir ao cinema mais próximo, que viria a ser um localizado dentro do próprio shopping. Conclusão: nossas vidas tomaram um novo rumo em função daquele cocô. Certamente, ele será responsável por um aumento ou diminuição de 5, 10 ou até 20 anos no período correspondente ao que permanecerei vivo. Literalmente, aquele cocô não foi pouca merda.

Em “O curioso caso de Benjamim Button”, observa-se uma reflexão idêntica a que está posta nos parágrafos acima. Talvez este tenha sido o ponto mais interessante de um filme badaladíssimo e tecnicamente genial, porém pouco revelador no que diz respeito ao Tempo, tema-matriz da fábula. Além de abordar a questão dos eventos contínuos que nos levam a diversos rumos distintos, o filme aponta para o fato de que não há nada que dure para sempre, mas isso o A-ha já tinha sacado em 1988...* Em suma, o favorito ao Oscar não revela nada de muito profundo. É apenas um belo filme.
De qualquer maneira, o tempo é um conceito intrigante e, talvez, o filme que melhor o tenha digerido é o clássico “Back to the future” de Robert Zemeckis.

Outro dia, vi-me imerso em pensamentos sobre o tema. Algo me intrigava: o sentimento de nostalgia. Comecei a lembrar com saudade de uma série de fases da minha vida. De repente, notei que sentia falta até de fases que não foram tão boas, tipo os períodos de decepção amorosa ou coisa parecida. “Porque diabos!?” – pensei. É muito louco isso. O simples fato de eventos bons ou ruins estarem entrelaçados a um tempo passado é o suficiente para que sintamos falta deles. Notei que sentia falta de muita coisa e calculei o quanto ainda não acontecerá em minha vida que me dê motivos para que sinta mais e mais falta no futuro. Conclui que os problemas físicos na velhice deverão ser os menos problemáticos... Isso tudo, claro, colocada a hipótese de eu chegar à velhice.

Tenho saudade de ser criança. Sinto falta da ingenuidade. Sinto falta do Natal como eu o entendia enquanto criança. Sinto falta de muitas pessoas vivas e mortas. Tenho saudade da sétima série. Sinto falta de tocar guitarra (estou sem amplificador). Sinto falta da Xica, a falecida gata do meu avô. Mas de uma coisa eu sinto muita falta: do tempo em que Ketchup e Mostarda eram colocados naqueles cones de plástico vermelhos e amarelos. Não me importa o quão anti-higiênico aquilo pudesse ser. Nada pode ser pior que esses sachezinhos

* ”There’s never a forever thing”, single do A-ha lançado no Brasil em 1989.


Não deixem de ler a postagem anterior "a realidade nua e crua da existência medíocre" - está mais interessante que esta e foi postada no mesmo dia.


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

A realidade nua e crua da existência medíocre


“Revolutionary Road” (na tradução, “Foi apenas um sonho”) é um daqueles filmes em que você aguarda o desfecho ansiosamente para dar o veredicto final acerca da qualidade da obra sob o seu ponto de vista. É, também, um daqueles que não decepcionam. Seu único pecado é ser tão comparável a “American Beauty”, dirigido pelo mesmo Sam Mendes.

Definitivamente, Mendes gosta de abordar o tema da infelicidade humana-conjugal decorrente da escolha, por parte dos indivíduos “civilizados” em geral, de rumos padronizados para a vida adulta. Em outras palavras e usando uma expressão norte-americana: as obscuridades do American way of life.

A principal diferença entre sua obra-prima “American Beauty” e o excelente “Revolutionary Road” é que, ao contrário do primeiro, o segundo é mais específico, temporalmente falando. A recente produção, protagonizada pelo casal “Titanic” Dicaprio/Winslet, está focada nos anos 50, tempos em que homens botavam dinheiro em casa e mulheres cuidavam das crianças. Os dramas vividos pela família Wheeler giram em torno desse panorama. Ainda assim, muitas semelhanças impedem a dissociação das duas obras. A trilha sonora e a direção das duas produções têm muita coisa em comum.

De qualquer forma, o vencedor do Oscar 1999 não tira o brilho de “Revolutionary Road”. Neste, o “ordinary couple” Frank e April não é tão “ordinary” assim. Tanto é que, percebendo a previsibilidade pela qual suas vidas tomavam rumo e os limites sociais que os rodeavam impiedosamente, resolvem se desfazer de seu patrimônio, angariando assim, fundos para viver uma nova vida em Paris. Seria a realização do desprendimento total daquela vida pacata e miserável, que aparentemente era maravilhosa. Mas a vida logo mostra que nada é tão simples assim.

Os grandes acertos do filme são, além do excelente elenco e intrigante trilha, o vizinho “lunático” vivido por Michael Shannon (indicado ao Oscar 2009 por esse filme), único da vizinhança que encara a dura realidade sem tentar enganar a si próprio, e a abordagem de alguns temas-tabu que ainda são tabus na sociedade atual. Um exemplo é o peso, nas costas de qualquer pai em sã consciência, que o nascimento de um filho gera (uso o termo relativo ao conceito de sanidade em função da maneira pela qual o filme trabalha essa questão – quem assistir, captará a mensagem).


Apesar da temporalidade do filme, o tema na sua génese é atual. Todos nós, seres humanos sociais, vemos, diariamente, nossas escolhas serem pautadas por uma série de fatores que estão acima da nossa efetiva vontade. Somos reféns da sociedade. Ainda que ela nos ofereça uma série de facilidades que os homens das cavernas não tinham como, por exemplo, ir até a esquina e comprar um quilo de carne previamente fatiada, às vezes nos damos conta de que paga-se caro por isso. Nossas mentes eventualmente se interrogam: “Quanto estou disposto a pagar por isso? Não estaria ficando pesado demais?”

Há quem pire. Há quem se entregue ao álcool ou às drogas. Há quem renuncie à vontade de viver. Há também quem não se pergunte sobre esse tipo de coisa. Há quem ligue o “foda-se” para tudo como Lester Burnham, o personagem de Kevin Spacey em “American Beauty”. E há quem aceite as coisas como elas são e continue na mediocridade que é a vida comum como os Wheelers de “Revolutionary Road”. Tanto a história de Burnham, quanto a dos Wheelers não acaba nada bem.

Mas, no fim das contas, alguma história acaba bem?



Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)