segunda-feira, 23 de março de 2009

Arte e Radiohead


A taxação, a classificação, a criação de estereótipos e derivados, definitivamente, não funcionam de forma saudável para a produção artístico-cultural de uma maneira geral. Quando se diz que Radiohead é um progressivo eletrônico contemporâneo está se reduzindo o conteúdo da música produzida pela banda a um determinado emaranhado de conceitos. Radiohead é Radiohead. Ouça. Além do que, pressupõe-se que só existem classificações cunhadas previamente ao aparecimento do elemento. Mas não é sobre isso que eu pensava escrever exatamente, afinal também não acho um crime taxar no intuito de tentar entender um determinado objeto: para isso servem os adjetivos. É natural mesmo que se pense assim. Eu também taxo e classifico o tempo todo...

O que tem me intrigado nos últimos anos é a questão da classificação das manifestações musicais, cinematográficas e literárias entre o que é - de fato - artístico e o que não é, sendo este segundo grupo, produto do que se acostumou chamar de indústria cultural. Cada vez mais sinto que é extremamente complicado afirmar que uma obra faça parte do segundo grupo. Exemplo cinematográfico simples:

- Hollywood é vista de uma maneira geral como a maior de todas as indústrias do entretenimento. Logo, nada do que ela produz é artístico – ou em outros termos – nada presta. Nenhum estúdio banca uma produção pouco acessível, concordo. A elaboração de uma obra densa, complexa e de difícil “degustação” torna-se impossível portanto nesse contexto. O que há de artístico em Pasolini não há em produções hollywoodianas. OK. Até aqui, morreu Neves. Mas pergunto: “Beleza americana” de Sam Mendes, ou produções clássicas como “Apocalipse Now” de Coppola ou “2001” de Kubrick não são artísticas? Se não são, o que são? Entretenimento de qualidade? Ah, não. Entretenimento de qualidade é 007. Mas certas produções vão além e ainda assim são bancadas pela indústria. Que tipo de público-alvo, por exemplo, a indústria estipula quando banca “Beleza americana”? ... Ah, e o recente Batman? É só entretenimento de qualidade?

Mudando o foco da discussão, outra coisa que chama atenção são as maneiras de definir qualidades musicais para determinadas bandas de rock. Há quem utilize como parâmetro a complexidade melódica, a profundidade das letras e ao virtuosismo instrumental. Para esses, o progressivo é a nata do gênero e o que veio depois do punk não presta. Outros são mais chegados a uma atitude rebelde, poucos acordes e letras politizadas. Estes execram o progressivo e exaltam o punk. Na verdade, há milhares de análises. Alguns outros parâmetros podem ser usados como a pretensão, tanto positiva quanto negativamente. Na verdade, toda produção para ganhar cartaz seja ela qual for, depende da interação com o ouvinte ou espectador. Os gostos variam e pronto. É isso.

Chega, cansei. Ia escrever sobre o Radiohead e desvirtuei totalmente o assunto. Só pra resumir: Radiohead é a nata do rock pós 1990. Vou além. É a única coisa que presta, salvo raras exceções. E como presta. Não esperava mais a existência de nenhuma banda capaz de mexer comigo até o som deles chegar aos meus ouvidos.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

terça-feira, 10 de março de 2009

A incoerência da ignorância + TV e a polícia


É impressionante a capacidade humana nutrida pela ignorância de interpretar erroneamente. Quando não há a busca por uma fórmula simplista para as situações analisadas, há, simplesmente, uma queda inconsciente nesse tipo de solução menos complexa. Ousaria dizer que trata-se de algo natural ao ser humano, não fosse a existência de alguns poucos cérebros que contrariam a expectativa e alcançam vôos mais altos.

Longe de mim procurar ser o dono da verdade ou observar outros tipos de interpretações de cima para baixo, como se as minhas convicções fossem as corretas. Não se trata disso. A questão que se coloca é: falta capacidade de discernimento, falta sensibilidade, falta a sagacidade necessária para, em alguns casos, observar o óbvio. E o óbvio, muitas vezes, é perceber o quão complexo é o caso. Desculpem a redundância, mas, para me fazer bem claro: notar complexidade, às vezes, é o óbvio, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Isso tudo é o grande problema da democracia. Entendam: não creio em verdades. Apenas me limito a aceitar exclusivamente perspectivas baseadas em argumentações balizadas, coerentes e lógicas. Do contrário, sofro. Sofro ao ver panoramas serem estabelecidos a partir de interpretações absolutamente incoerentes. E, com exceção de raríssimos casos, esse é o quadro que impera na rede sócio-política em que vivemos.

E quando as coisas caminharem de acordo como você pensa, meu caro raro cérebro, não se iluda: o caminho que a maioria tomou para escolher de acordo com sua preferência foi incoerente e sem qualquer lógica...

**********************************

Comentário sobre Telejornal regional - RJ.

- A entrevista era com o delegado responsável pelo petralhumento policial em Santa Tereza, um dia depois do assalto em que duas estudantes foram violentadas. A apresentadora pede a palavra e pergunta algo mais ou menos assim: "Senhor delegado, eu como cidadã e jornalista gostaria de saber aquilo que todos os moradores de Sta.Tereza devem estar querendo saber: quando se poderá ter a certeza de que crimes como esse não irão mais acontecer?" ... (fiquei olhando para a TV com um olhar de incerteza, daqueles de alguém que não acredita no que está vendo e ouvindo).

- Notaram algo absurdo, ou eu estou ficando maluco?

- Nessas horas eu queria ser o delegado para responder: "Querida, não sei se você notou, mas eu sou policial, e não mágico, visionário, Deus..." Ora bolas, que tipo de pergunta é essa? Juro que parece cinismo. Custo a acreditar que ela seja inocente a ponto de achar que a polícia poderia garantir isso. Fica parecendo que ela quer mostrar para a população que cobra, que cumpre seu papel social de jornalista, sabem? Ah, faça-me o favor...

- A polícia deve zelar pela segurança da população? Ok, concordo. Mas peraí... ela não pode garantir que um louco não saque uma arma e dispare contra a cabeça de qualquer um no meio da rua. O que ela deve fazer é: tentar estar presente no maior número de lugares possíveis para EVITAR a execução de crimes, além de - no caso destes já terem sido cometidos - pegar e prender os executores. Aliás, foi exatamente isso que o delegado respondeu a ela - de forma educada, claro. A resposta era previsível, óbvia. Porque? Porque a pergunta é, com todo respeito, idiota.

- Isso tudo sem falar que, para qualquer instituição policial no Mundo efetuar sua função social com louvor, há um pré-requisito: o crime deve ser exceção. Ou seja, ainda que a polícia carioca não estivesse corroída pela corrupção, pela ilegalidade e pelo crime, não seria justo apontá-la como fracassada. O problema é muito maior do que isso. Não é só de ordem policial. Pode chamar a SWAT, o Capitão Nascimento, o FBI... não será suficiente.

- Ah... a solução? Esqueçam, meus caros. Ela não é compatível com a estrutura sócio-econômica mundial. O mundo é pequeno demais para as duas...


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

sexta-feira, 6 de março de 2009

And the Oscar goes to...

Na foto: Danny Boyle, o realizador.

“Slumdog millionaire” foi o Papa-tudo da vez na cerimônia do Oscar no último dia 22 de fevereiro. Ainda que não tenha assistido a Frost/Nixon, que estréia hoje nos cinemas brasileiros (Sexta 6/3), já me sinto no direito de emitir uma crítica positiva em relação ao sucesso do filme de Danny Boyle em Hollywood. Ainda que não concorde nem um pouco com as indicações a melhor filme que ignoraram as três melhores produções americanas do ano – Doubt (Dúvida), The wrestler (O lutador) e La boda de Rachel (O casamento de Rachel) -, posso dizer que o prêmio foi merecido.


“Milk” de Gus Van Sant também ganhou um lugarzinho na história de Hollywood. Sean Penn levou a estatueta de melhor ator com méritos. Ainda assim, a belíssima história de Harvey Milk encenada por um elenco que conta com Penn, Josh Brolin e James Franco não precisa de muitos outros acertos. A direção de Van Sant praticamente elimina chances do projeto fracassar. No caso de “Slumdog millionaire” não é bem isso que acontece. A série de acertos da produção é essencial para fazer dela um excelente filme. Não há um diretor consagrado, nem um elenco de peso e nem uma história real que por si só já é emocionante. Por esse motivo, creio haver justiça na premiação - ainda que prefira assistir a um filme como “Milk”.


A estética de direção de Danny Boyle é, no mínimo, pouco tradicional – algo ousado (ele utiliza Flashbacks, tonalidades diferentes em determinadas tomadas e efeitos do gênero). E acerta na mão. O roteiro é de uma originalidade rara. Os problemas que poderiam surgir em função do elenco ser todo composto por locais (atores indianos), são evitados com louvor. Na verdade esse fator passa a ser positivo para o sucesso do filme. A trilha sonora é uma beleza. Em suma, o filme é um acerto só. Frente a “The curious case of Benjamim Button” e “The reader”, no meu ranking, ele leva de lavada.

Quanto às premiações de atriz principal e coadjuvante, só tenho a dizer o mesmo. A premiação de Penélope Cruz era até certo ponto esperada, havendo um pequeno risco de Viola Davis ser a zebra da vez. Mas melhor assim. A espanhola dá show em “Vicky Cristina Barcelona” e já há algum tempo merecia o prêmio. Kate Winslet era barbada. Estrelando duas fortes produções no ano, a atriz não poderia deixar de ser premiada não só pelo desempenho em “The reader” (O leitor), mas pelo conjunto da obra. Até porque performance por performance, creio que Anne Hathaway e Meryl Streep arrasam muito mais em seus respectivos filmes (“Doubt” – Dúvida / “La boda de Rachel” O casamento de Rachel). Heath Ledger eterniza-se na história de Hollywood, finalmente. O James Dean do século XXI... hehehe


---------------------------------------------------------------------------

Gostaria de colocar apenas dois pontos em relação a questões cariocas.

1 – A demolição de um estabelecimento alimentício na Gávea, conseqüência do choque de ordem, é envolvida por uma camada de subjetividades assustadoras. Para mim, o que antes era uma dúvida, agora é uma certeza: Rodrigo Bethlem e Eduardo Paes querem por que querem aparecer. Isso pode ser bom... ou não.


2 – A tentativa de assassinato na Niemeyer é absurda (Sim, como tantos outros eventos ocorridos recentemente na cidade, concordo. A vida é cheia de absurdos). Ainda assim, pela milésima vez, voltarei a dizer que enquanto a justiça permitir impunidade para os poderosos – e para os não-poderosos também – o quadro permanecerá aterrorizante como está. Que os órgãos responsáveis pela segurança pública estão corroídos, isto nós já sabemos. Mas enquanto não houver um “choque de ordem” no judiciário, não adianta nem melhorar a polícia. Quero ver quanto tempo esses sujeitos vão ficar presos... E olha que eles são a escória da sociedade – não falo por mim, mas pelo sistema. São, certamente, sujeitos marginalizados e sem quaisquer oportunidades. Mesmo com todas essas considerações, não há motivo para pena. Prisão perpétua – é a única saída que se aproxima um pouco de algo chamado justiça (por sinal, utópico...).

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)