quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Moral: cinismo ou espiritualidade?


Tudo começou numa conversa sobre astrologia com a namorada, numa bela tarde ensolarada na praia do Arpoador. Papo vai, papo vem, e chega-se a uma discussão acerca de uma possível espiritualidade envolvendo ateísmo e ceticismo. Disso, emerge a questão da moralidade. Confuso, não? Explico.

Disse um astrólogo em entrevista a Marília Gabriela no GNT crer que ateus, muitas vezes são aqueles mais espirituais, ainda que não o percebam. Pus-me a refletir. Que diabos ele quis dizer? Parece doideira atribuir espiritualidade a um ateu. Enfim. Procurei chegar lá. E penso ter conseguido.
Para tanto, pautei-me por exemplificações práticas: ao passo que um ateu age moralmente ou eticamente, ele desenvolve uma atitude espiritual. O que quero dizer? Um ateu que baseia suas ideologias e ações no plano da vida material - e nada mais - deveria, por lógica, agir de acordo com seus benefícios. A praticidade de suas realizações deveria dar sentido apenas a sua existência da melhor forma possível. Se não há nada além das percepções materiais, não há razão para agir segundo uma moral. O que chamo de moral não é deixar de furar fila. É deixar de furar fila por uma complexa razão espiritual. Se o ateu deixa de fazê-lo porque tem medo de ser linchado, aí são outros quinhentos – nada feito. Mas se ele o faz por crer que aquilo o beneficia de alguma maneira, ele está agindo espiritualmente. (O astrólogo deve ter colegas que fazem coisas desse tipo) Essa foi a maneira pela qual acreditei ter desvendado a questão.
Mas isso deu margem para mais pensamentos envolvendo moral e interdições. Para que o leitor disfrute de minhas considerações, deverá partir do mesmo pressuposto do qual parti: em circunstâncias “naturais” (muitas aspas), o ser humano deveria – tendo a chance de fazê-lo sem conseqüências desagradáveis – furar filas (uso essa prática apenas como exemplo). Afinal, gatos não fazem fila diante de uma série de pedaços de salmão. Come maior quantidade o que for mais troglodita... Posto isso, me pergunto: porque formamos filas?

Tenho problemas muito particulares com aqueles que não pautam suas atitudes pela boa civilidade, materializada na figura da fila. Isso decorre das desagradáveis tardes em que resolvo me dirigir ao estádio do Maracanã para assistir partidas do Flamengo. O vício me impede de deixar essa prática de lado. Ainda assim, tenho consciência da roubada em que estou me metendo. A disputa pelo ingresso é sempre “na marra”. Ao invés de filas, vemos um mar de pessoas abarrotadas nas bilheterias – metade delas sem qualquer senso de cidadania, agindo de acordo com o seu interesse e mais nada. Como os gatos... de qualquer maneira isso me traumatizou.
Traumas a parte, me pergunto: porque diabos a furação de fila tanto me incomoda? (mais do que denúncias de superfaturamento em obras públicas) – porque eu sinto na pele o sofrimento que decorre dessa prática. Quando somos vítimas diretas sofremos mais e, portanto, nos empenhamos mais em ser “civilizados”. Porque quando uma criança morre vítima da criminalidade urbana, seus pais passam a agir politicamente em favor da paz? Porque depois que sofremos um assalto, nos indignamos mais do que quando estamos aproveitando uma boa praia? Porque muitos derramam lágrimas no cinema e quando saem do mesmo partem para um bom hambúrguer sem posterior indigestão, ou pior, fazem graça de um aleijado? Tudo isso acontece porque, na verdade, só nos incomodamos quando sentimos na pele ou quando a desgraça se coloca estampada na nossa cara, incomodando.
Aonde quero chegar? – perguntam vocês. Quero dizer que a suposta moralidade da qual tanto falamos se estabelece através de interdições de cunho cínico. Se meu trauma com filas aumenta meu ódio por aqueles que não aderem-na é porque, para mim, não se trata de uma questão moral aderir. Mas sim de uma questão pessoal: ela me beneficia pois de troglodita, nada tenho,e, portanto, na força, perderei.
Conclusão: sou um escroto de marca maior.

FIM

Toda a argumentação acima é apenas uma reflexão. Não acredito em tudo o que foi dito. Agi como “advogado do diabo”.
Na verdade, eu acredito na moral cínica, mas TAMBÉM no que chamo de moral espiritual. Tendo explicado a primeira nos parágrafos acima, classifico a segunda como uma atitude inclassificável. Ela existe para além de qualquer explicação. É simplesmente algo bom. É amor.
Ainda não criei coragem para aderir totalmente ao ceticismo, ainda que seja um profundo admirador do mesmo. Mas, mesmo observando o mundo por uma ótica bastante pessimista, ainda acredito no amor. Ainda preciso disso. A ingenuidade tem de tomar conta de pelo menos 5% do meu ser, do contrário fico louco. Não quero me transformar num gato, num bicho (nada contra os gatos, mas contra a maneira como eles disputam comida). Quero crer que as atribuições cerebrais características a espécie humana – as quais chamamos de inteligência – possam ser usadas em função da civilidade e do amor. Quero crer que não existe apenas a moral cínica, mas também a espiritual.
Concluo que quando não furo filas, quando não me deixo corromper, quando procuro agir sem prejudicar o próximo, creio estar interditando ações egoístas a partir da moral cínica (sempre), mas também da moral espiritual.

É Natal, não é mesmo? Hoje, abracei o Amor. Hehehe Ainda não virei um ateu cético. O tempo, provavelmente, dará conta disso.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Crueldade ontem e hoje


Assisti na última terça-feira “The boy in the striped pajamas” (O menino do pijama listrado), mais uma produção que abarca o tema da inocência infantil frente à estupidez adulto-humana, dessa vez materializada pelo nazismo. O filme é uma adaptação do romance de John Boyne, que leva o mesmo nome.
Diferentemente de filmes como “Machuca” ou “La Faute à Fidel!” (A culpa é do Fidel!), “The boy in the striped pajamas” é menos sutil ideologicamente. Ele é claríssimo, até demais. A começar pelo fato de que a história é bastante inverossímil, ao contrário das dos filmes citados acima. Em “Machuca”, tudo gira em torno da amizade entre meninos de classes sociais distintas que estudavam no mesmo colégio em função das medidas do governo Allende. Em “La faute à Fidel!”, uma menina filha de militantes e neta de conservadores vive uma série de dilemas infantis. Nesta última produção norte-americana, um menino filho de oficial nazista mora a pouco mais de 1 quilometro de um campo de concentração e consegue chegar a cerca eletrificada de onde estabelece contato com um pequeno judeu – o tal garoto do pijama listrado. Daí rola uma amizade que vai dar num final interessante, mas pouquíssimo crível. Essa inverossimilhança faz da obra uma reflexão caricata, onde as intenções se mostram óbvias.
Não se trata de uma crítica ao nazismo, efetivamente. Mas ainda assim, esse evento histórico é usado como elemento para reflexão, sem que se estabeleçam contrapontos, o que é complicado. Quero dizer: o nazismo aparece como algo horrível no filme. E foi, de fato. Mas até que ponto isso não pode ser assimilado erroneamente como algo que já passou? Um mal sanado? Em “La faute à Fidel!”, as faces perversas do conservadorismo são denunciadas e materializadas no golpe de Pinochet, mas as contradições da militância também são abordadas. Um exemplo ilustrativo é o momento em que o pai comunista leva a filha de 8 anos para uma passeata que termina com as pessoas levando cacetada da polícia (!?!?). Não é legal fazer isso...
Finalizo apontando “The boy in the striped pajamas” como um bom filme, salvo as críticas acima.

A propósito, deixo uma reflexão:
- Na Alemanha nazista, quem era contra o sistema podia fugir dele, renunciando ao partido. Claro, conseqüências como expurgo do país ou morte eram freqüentes para traidores desse tipo. Mas e na atual capital-democracia global? Se o cidadão não tem muita simpatia pelo consumismo desenfreado, o que fazer? (não vale virar pseudo-revolucionário e vestir uma camisa do Che) Na minha opinião, só o suicídio dá conta da libertação.
- Por essa ótica, qual sistema é mais cruel?

Rafael Leme Gonzalez (Rafael.leme@globo.com)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vencido, reverencio a rainha

“I’d give you a B- for that”, disse Madonna ao público depois de uma “Dress you up” levada a cappella. Pois é recíproco - eu diria. Na verdade, esta crônica seria bem diferente não fosse o andamento do show de segunda-feira, dia 15 de dezembro de 2008, no Maracanã, a partir de “Like a prayer”, ou seja: não fosse seu final. O espetáculo parece ter terminado melhor que começado. Até certo ponto, confesso que pensava: “ela não vai, efetivamente, levantar essa galera. Não vai rolar”. Ledo engano... No fim das contas, a apresentação pôde ser digerida de forma bastante positiva.
Tudo começou com um atraso de 1 hora e meia, capaz de deixar até carioca frustrado. Tanto é verdade, que as vaias e os gritos de “piranha!” tomaram conta do estádio a partir das 21 horas. Mas – naturalmente -, quando as luzes se apagaram, o Maracanã, às escuras, começou a berrar pela diva. Madonna surgiu sentada numa poltrona de rainha e em poucos segundos já estava dançando por todo o palco. “Candy shop”, “Beat goes on” e “Human nature” precederam a interpretação de um mix de “Vogue” com “4 minutes”, do qual sobressaiu-se melodicamente a segunda. Porque? – pensei – já que “4 minutes” seria tocada no último bloco do show. Depois de uma estranhíssima “Into the groove”, somaram-se mais e mais indagações. Mas nada foi tão duro quanto ver “Bordeline” se transformar num Hard Rock. Que diabos era aquilo?
Antes dos ciganos entrarem em cena, pus-me a refletir acerca do quão nostálgico e chato eu poderia estar sendo. Talvez uma pequena ajustada na ótica pela qual assimilava aquilo tudo seria suficiente para aproveitar o momento único. Da reflexão, surgiram algumas conclusões. O espetáculo, de uma forma geral, se pautou pela estética musical que vigora hegemonicamente no mundo e pela qual não tenho muita afinidade. Madonna adequou-se. Ainda que as coreografias fossem bastante parecidas com as de outros tempos, a estética musical não é a mesma. As batidinhas de “Holiday” e “Dress you up” não têm mais espaço. Os tempos são mesmo de batidão!
“Spanish Lesson”, “Miles away” – belíssima -, e “La isla bonita” – irreconhecível não fosse a letra – foram executadas cheias de exotismo, que se evidenciava na presença de uma trupe de músicos ciganos no palco. A bela “You must love me” gerou um certo frisson no Maracanã.
“Get stupid” inaugurou a última parte do show. Imagens no telão uniram os estúpidos Hitler, Mahmoud Ahmadinejad e John McCain e, em seguida, exaltaram figuras como Ghandi, John Lennon, Nelson Mandela, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Barack Obama e Bill Clinton (!?!?). Estou até agora tentando estabelecer conexões entre os relacionados acima e não obtive qualquer resultado. De uma forma ou de outra, críticas ao consumismo são sempre bem vindas. Mas logo da garota materialista?
Foram preciso “4 minutes” para o jogo começar a virar, de fato. (Que trocadilhadela ridícula) Depois da execução do novo hit com direito a um virtual Justin Timberlake no palco, Madonna se dirigiu a sua audiência: “I heard that you saved a lot of prayers. It didn’t rained tonight”. O público respondeu com berros, e “Like a prayer” tirou a galera do chão. A massa sacudiu legal. Daí pra frente, o show ganhou em exuberância e animação. Ainda que todo o repertório recente tenha sido magistralmente interpretado durante todo o show, a partir daqui o público interagiu bem mais.
Antes de “Ray of light”, Madonna pediu uma sugestão musical a um integrante do público. O anônimo Daniel escolheu “Dress you up”. A rainha levou-a no gogó. Ainda que seja sabido que um playback acompanhou-a quase todo o show, esse momento serviu para decretar a vivacidade de sua voz e da do público também, ainda que Madonna tenha dado, com dose de bom humor, um B- para a galera. “Hung up” foi seguida de “Give it to me”, canção que fechou o espetáculo. Antes de executá-la, Madonna vestiu-se com a blusa da seleção e trouxe uma bandeira do Brasil em mãos. A mensagem “Game over” tomou os telões após o sumiço da estrela.
Acabado o grandioso espetáculo, um sutil som ambiente tomou conta do Maracanã, que esvaziava-se gradativamente. Era a “Holiday” original com sua batidinha característica. Que fim...! Meu B- é irônico como o de Madonna. Ela merece mais que isso.

Do show ficam boas lembranças.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

E quando menos se espera... o natal

"Happy Xmas” embalando os passeios pelo shopping; portarias, varandas e vegetação urbana iluminadas; comércio borbulhante; congestionamentos nos arredores da Lagoa Rodrigo de Freitas; e o peru no freezer são indícios do irremediável: o natal, companheiros, chegou novamente! ...Ah, O Natal... família reunida, conflitos superados, florescimento do amor e da solidariedade! Pelo menos é essa a perspectiva que a publicidade em nome do sistema procura enfiar-nos goela abaixo.
Ainda que o senso comum concorde que um ano é tempo suficiente para profundas transformações internas no ser humano – ainda mais quando se é jovem -, o natal parece figurar como um eterno flashback. As pessoas envelhecem, o arquivo de memórias incha, mas o natal é sempre o natal de sempre (se me permitem a redundância). Na verdade, acho que os fins de ano são iguais. Seria algo que transcende o elemento “natal”? Fica a indagação. Só sei que o papo no elevador nunca cessa sem o tradicional “mas o tempo passa rápido, em!? Já tâmo no Natal de novo!”. As piadinhas infâmes na ceia do dia 24 então nem se fala: “E aí fulano, que tal o peru – com trocadilho -? Já provou?”
Definitivamente, não precisa ser vidente para saber que os Papais Noéis vão se proliferar pelos shoppings, a rede Globo vai exibir a retrospectiva, o Sérgio Chapelin vai apresentá-la, a missa do galo vai ser transmitida por alguma emissora, você vai dar um troco pro porteiro (se você for o porteiro leia: você vai receber um troco dos moradores), você vai receber uma pancada de presentes inúteis, você vai dar uma pancada de presentes igualmente inúteis, alguém vai estourar uma garrafa de champagne do seu lado no réveillon – provavelmente Sidra -, os fogos iluminarão Copacabana, uma fumaça densa arruinará a visão dos presentes, o São Paulo será o campeão brasileiro e o Fluminense, tal o como o Botafogo, fechará o ano sem títulos. A previsibilidade do fim de ano é realmente assustadora.

E com mais um “natal de sempre” e as esperanças inúteis de um próspero ano novo, deixo algumas considerações acerca do ano que chega ao fim.


Considerações futebolísticas:
- Bom, como de costume, o ano deixou mais uma taça nas mãos do Flamengo. Os fracassos rubro-negros sempre são amenizados por esse fato. O Fluminense finaliza uma temporada sofrível tendo deixado escapar o sonhado título da Libertadores, que ficou nas mãos de Cevallos (bendito atleta!!). O Botafogo chorou muito no início, mas as saídas de Cuca e Túlio dão indícios de que a choradeira cessará. É o que esperamos.
O Corinthians voltou no embalo do peso de sua camisa, que tanto se dedicou à série B que pouco significou na Copa do Brasil perdida para o Sport (Viva futebol de Pernambuco!!). Foi-se o Vasco da Gama para a Segundona. Mas não há motivos para desespero: o vice também sobe.
O São Paulo sagrou-se campeão brasileiro. (Ohhhhh!!) E o Flamengo – campeão estadual – fechou a temporada de forma tenebrosa, arrastando-se em campo quando deveria vibrar. A vaga na Libertadores virou pó frente a pontuação de Cruzeiro e Palmeiras, equipes igualmente atrapalhadas. Mesmo com derrotas pífias das equipes mineira e paulista, o Flamengo conseguiu a façanha de somar mais resultados absurdos e patéticos no campeonato, conseguindo assim a quinta colocação. O empate com o Goiás é simbólico para ilustrar o argumento irônico, mas procedente.

Considerações musicais:
- Depois de 2007 brindar-nos com a vinda do Police e de Waters, 2008 possibilitou a vinda da rainha Madonna. O Maracanã é um palco formidável, sem dúvida. E o show deverá ser um sucesso. O Queen também compareceu. Desmembrado, mas compareceu. Ah! E 2009 já parece chegar brilhantemente com Sr. Elton John na Apoteose. O ingresso já está garantido.
- Deixo uma dica universal: já que é a primeira postagem em que trato das coisas mais genericamente, indico a mais notável obra musical já feita na história da humanidade – “Abbey road” The Beatles. Enjoy it!

Considerações jornalísticas:
- Para quem tem um parafuso a mais, não há nada como a revista Piauí. Fã desde o primeiro exemplar de novembro de 2006, indico duas reportagens que devem ser lidas pelos antenados:
“O caseiro” – edição de outubro 2008 – absolutamente revelador.
“Na rota do Kif” – mesma edição – absolutamente intrigante.
Na verdade toda a edição de outubro deve ser devidamente devorada pelos leitores que se prezem. As férias me possibilitarão a leitura das de novembro e dezembro, já garantidas.
- O jornal “O Globo” tem publicado reportagens no sentido de revelar o caráter civil da ditadura militar. A série começou domingo, dia 7, e deve prosseguir pela semana. Interessante.
- O Jornal do Brasil, apesar do formato que não me agrada, tem mostrado vitalidade. Que bom.

Considerações cinematográficas:
- O ano de 2008 deixou boas coisas no campo da sétima arte. Dentre as mais significativas está a produção da Pixar “Wall.e”. O argumento é interessantíssimo, a execução é brilhante e o robozinho é o máximo. Talvez a melhor das animações desse tipo, dentre as quais também se mostra excelente “Por água abaixo” e “Procurando Nemo”.
- Heath Ledger deixou sua última contribuição. E que contribuição! O Coringa rouba a cena em “Batman – the dark knight”. Pena que o Batman continua sendo interpretado pelo insosso Christian Bale, que não acrescenta nada ao personagem e deixa-o totalmente sem sal. De qualquer forma, a produção é excelente e imperdível. Talvez o melhor filme de super-herói dos últimos anos. O que não quer dizer muito, pois a maioria dessas produções dá um sono...
- Não é preciso que se diga de quem é a direção de “Vicky Cristina Barcelona”. As sutilezas, a ironia e a presença de Scarlett Johansson no elenco não deixam dúvidas: é mais uma obra de Woody Allen. Como de costume, o argumento gira em torno dos relacionamentos. O resultado é um filme excelente. As interpretações de Penélope Cruz e Javier Bardem são notabilíssimas. Este último, aliás, tem ganho bastante espaço em Hollywood. O também imperdível “No country for old men” (Onde os fracos não têm vez) o possibilitou levantar a estatueta de melhor ator coadjuvante no Oscar 2008 pela interpretação de um assassino frio e calculista – realmente assombrosa. Agora, seu personagem é completamente diferente, mas o ator manteve o alto nível.
- Outro artista que terá destaque nas minhas considerações é George Clooney, que protagoniza mais uma super produção este ano. “Burn after reading” (Queime depois de ler) é dirigido pelos irmãos Coen – de “No coutry for old men” – e está gerando bastante badalação. Trata-se de uma comédia bastante divertida. Clooney esteve muito bem em “Michael Clayton” (Conduta de risco), indicado ao Oscar no ano passado, e dirigiu em 2006 o perfeito “Good night and good luck” (Boa noite e boa sorte), imperdível para os estudantes de jornalismo. Em "Burn after reading", no entanto, sua atuação é mais impressionante. Só por ele, o filme já vale a pena. John Malkovich e Brad Pitt ainda compõem o belo elenco. Vale a pena dar um passadinha despretenciosa no cinema.
- As grandes produções ainda estão para chegar, mas das que já passaram por aqui, só me resta falar do sempre badalado 007. “007 – Quantum of solace” é pipoca da melhor qualidade. Não faz pensar muito, mas já que estamos falando de entretenimento, que seja Bom. E é. Não melhor que o arrasador “Cassino royale”, mas diverte bastante. Ah... e eu sou do grupinho dos que aprovam Daniel Craig. Os nostálgicos que me desculpem, mas o 007 do século XXI está em boas mãos. Craig é mais saradão, violento, mas funciona muito bem. Que fique na função por mais alguns anos!
- Ah!!! Tinha me esquecido do melhor. Não deixem de assistir “REC”. Trata-se de uma produção espanhola inovadora, de resultado muito feliz, e arrepiante – não corte o clima e veja no escuro (medida essencial para a degustação da película).

Deixo por fim algumas sugestões mais genéricas:
- Entendam por que Jack Nicholson é Jack Nicholson: “Chinatown” – Roman Polansky; “The shining” (O iluminado) Satnley Kubrick.
- Mudem a vida de vocês assistindo às duas maiores obras-primas do cinema: “American Beauty” (Beleza Americana) Sam Mendes; “Seven” David Fincher.
- Conheçam o Mestre: “Vertigo” (Um corpo que cai); “Psycho” (Psicose) Alfred Hitchcook.
- Apaguem a luz e confiram: “Alien – the 8th passenger” (Alien, o oitavo passageiro) Ridley Scott; “Haloween” John Carpenter; “Jaws” (Tubarão) Steven Spielberg.
- Pensem: “The Matrix” Waschowski brothers.

Feliz natal.

Rafael Gonzalez (r
afael.leme@globo.com)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Reflexões Histórico-cinematográficas

O conteúdo desse texto foi utilizado como trabalho final de uma discuplina do curso de história da UFRJ. De qualquer maneira, apesar das especificidades, valida alguns filmes como essenciais para a percepção de certos aspectos característicos de nossos tempos

Remetendo-nos a Marshall Sahlins que usa o beisebol para refletir as imprevisibilidades da História, e pautando-se pela obra de Emir Sader "Cuba, Chile e Nicarágua", podemos dizer que, quando Allende conta seu plano político - em relação a sua ida a TV para convocação de um plebiscito - para o general Pinochet, um slow motion “historiográfico” entra em cena. Esse fato seria o home run de Bobby Thomson da história do Chile, ou seja, um fator determinante para o 11 de setembro de 1973. O ultimato golpista a Salvador Allende foi seguido de um bombardeio e de um golpe de estado que se consagrou como a pá de cal para a tentativa socialista.
De fato o Chile foi submetido a um regime desse tipo. Segundo Sader, alguns fatores como a estabilidade econômica e o surgimento precoce de uma classe operária no país – em relação aos demais países latino-americanos – viabilizaram a eleição de Allende. Enquanto a maioria dos “vizinhos” vivia sob repressão, o Chile caminhava em outra direção. Mas não por muito tempo, afinal, como ressalta Eduardo Valdés, o período caracteriza-se por “estreita conexão com uma série de fenômenos internacionais”, entre eles o que se entende por Guerra Fria. A contestação ao sistema foi duramente reprimida pelos que o encabeçavam e, talvez, o caso chileno tenha sido o que melhor reflete o uso da violência, e sua estreita ligação com a política, em relação às práticas repressivas realizadas pelo Estado, a partir do golpe.
É diante desse contexto que o filme “Machuca” de Andrés Wood trabalha a arquitetura social e as mudanças que ocorrem num, relativamente, curto espaço de tempo no Chile sob o olhar de um menino. Ou seja, de um dia para o outro, passa a ser cool se relacionar com colegas que residem em regiões bastante pobres e, de repente, esses colegas viram inimigos número um da sua família. Até que ponto isso não é absurdamente confuso para uma criança? Hoje, sua mãe acaricia o coleguinha pobre e, amanhã, a mesma mãe apóia uma junta militar que se dará ao direito de exterminá-lo. Isso já é confuso para um adulto, quanto mais para uma criança.
Outro filme que se prontifica a tratar do mesmo tema é “A culpa é do Fidel” de Julie Gavras, que narra a história de uma menina que, filha de pais militantes e neta de avós conservadores, vive um verdadeiro drama ao tentar entender o que se passa. De um lado a empregada, anticomunista até o último fio de cabelo, joga a culpa por qualquer coisa em Fidel Castro. Do outro, seus pais protestam a favor do regime de Allende no Chile. E ela – uma verdadeira lady até então – acha aquilo tudo, em princípio, uma grande chatice.
No caso de “Machuca”, os acontecimentos políticos ligados à subida de Allende ao poder permitem que Gonzalo e Pedro estudem na mesma sala. Nasce daí uma amizade entre um menino mais rico e outro mais pobre. Tudo vai muito bem até que as manifestações a favor e contra o governo de Allende tomam as ruas. Nesse ponto, chamo atenção para algo muito interessante que é possível ser notado no filme: os meandros das relações sociais. É bom que se afaste das definições binárias e simplistas. Pedro Machuca e seu vizinho eram pobres, logo militavam a favor de Allende. (Pééé) Errado. Os dois apenas aproveitavam-se dos acontecimentos políticos para vender bandeirinhas tanto nas manifestações comunistas, quanto nas golpistas (!).
A partir do momento em que a mãe de Gonzalo briga ferrenhamente com sua amiga, vizinha de Machuca, tudo fica mais confuso na cabeça do menino. Ao mesmo tempo em que o garoto mantém a amizade, internaliza o conflito político e acaba tomando parte dele quando chama o amigo de “favelado”. Teria ele escolhido um lado, depois de ter estado por um tempo em cima do muro?
Na verdade, tudo o que envolve aquela situação é complexo demais para o garoto. Não há como ele tomar parte. Ele simplesmente gravita sem rumo diante das contradições dos discursos e das situações que se apresentam. No colégio, ele se nega a agredir o amigo. Algum tempo depois, o chama de “favelado”. Mas não se pode exigir lógica diante do quadro vivenciado por Gonzalo. A violência a qual é submetida a seus companheiros o choca. Sua amiga é alvejada e morre diante de seus olhos. O colega é levado. O vizinho espancado. Seu par de tênis Adidas passam a significar muito, afinal ele precisa sair do local. A imagem do soldado olhando para seus pés e permitindo sua fuga corresponde a vitória do sistema. A amizade ficou para trás, assim como o sonho da militância socialista.
Finalizo a análise apontando tanto “Machuca”, quanto “A culpa é do Fidel” como filmes essenciais para a reflexão acerca das simbologias e das construções conceituais (Múmias, barbudos, rojos, etc) e como isso pode ser uma grande bobagem aos olhos de quem não contempla tudo aquilo que envolve as questões políticas – crianças, por exemplo.
Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

Sensual e Materialista

Madonna é a personificação do ideal materialista que rege todas as relações humanas nesse início de século XXI

Que rufem os tambores! Dezembro celebrará a volta da rainha do pop ao Brasil depois de 15 anos. A turnê mundial Sticky & Sweet passará pelo Rio de Janeiro nos dias 14 e 15 e São Paulo nos dias 18, 20 e 21. No Rio, como não poderia deixar de ser, o Maracanã se encarregará de recebê-la. Aos cinqüenta anos de idade, Madonna parece não ter perdido nenhum vigor físico em comparação ao início dos anos 80, quando emergiu como fenômeno musical numa New York à beira do colapso: falida e abatida pela crise do petróleo.
Em 1978, os embalos de sábado à noite estão em primeiro lugar nas paradas de sucesso. A disco music alcança seu auge no momento em que o movimento punk entra em ruína. Os Sex Pistols se separam, Sid Vicious se suicida e a música pop começa a entrar em cena. O rock’n’roll abre espaço para o surgimento de movimentos como a new wave e o pós-punk, de caráter underground.
Na verdade, o momento é de transformações conectadas diretamente às ideologias políticas. A negação do sistema, característica do fim dos anos 60 deixa de ser martirizada. A idealização do revolucionário, da conscientização, do esclarecimento, da quebra de valores, característicos dos movimentos de contracultura e hippie dão lugar uma atitude também rebelde, porém de cunho liberal-capitalista. Ou seja, procura-se fugir das dualidades de um mundo em guerra fria, mas valoriza-se a imagem, o “ter”, em suma: o materialismo. Profeta ou não, John Lennon já dizia no início dos anos 70: “O sonho acabou”. E acabou mesmo.
Viver os anos 70 era encarar um mundo bi-polarizado. Comunistas de um lado, capitalistas do outro. Bem e mal, negro e branco, virgens e putas, assim eram postas as coisas, antagonicamente. Madonna sintetizou esse momento como ninguém. Musicalmente, uniu elementos punks, dançantes e da música disco europop, que pode ser exemplificada com “Born to be alive” de Patrick Hernandez - Madonna inclusive trabalhou como dançarina de Hernandez no início da carreira. No campo ideológico, abraçou um materialismo ousado ligado à sensualidade e, segundo alguns, à autenticidade, maneira polêmica de analisar o conceito Madonna.
Na biografia “Madonna, 50 anos” publicada recentemente, a autora Lucy O’Brien refere-se a Madonna como um ídolo pop “não mais pré-fabricado, mas autêntico.” Num mundo em que fervilha a indústria cultural, fazer sucesso sendo autêntico é meio difícil. Tudo bem que Madonna já surge com sua maneira própria de ser estrela, mas toda essa ideologia que a acompanha é uma construção. Tanto é que o público, de cara, entende sua mensagem e faz dela um fenômeno. Não há complexidade em Madonna. Há letras diretas e muitas vezes fúteis. As pessoas queriam aquilo, “falavam aquela língua”.
Junto com Madonna e seguindo seu estilo surge Cindy Lauper. Ambas exploram o rico universo do desejo adolescente feminino. Mas nada melhor que essa comparação para captar as particularidades de Madonna. Lauper apenas dizia – bem alto, admito – que “girls just wanna have fun” (garotas só querem se divertir). Madonna ia além. Muito além.
Em 1983 estoura o primeiro álbum com os sucessos “Lucky Star”, “Holiday” e “Everybody”, que bombou nas pistas. Gabando-se de muita ambição, como era de costume, Madonna dá a seguinte declaração no famoso programa norte-americano de TV American Bandstand: “Vou dominar o mundo”. De certa forma, não se pode negar que ela estava certa. No mesmo ano dessa declaração, 1984, Madonna atinge um nível absurdo de sucesso. O clássico “Like a virgin” dava nome ao álbum, que trazia o hino de Madonna nos anos 80, “Material girl”. A primeira causou bastante polêmica. Principalmente devido à origem do nome artístico Madonna. A palavra deriva do italiano. Mia Donna quer dizer Nossa Senhora, a Virgem Imaculada mãe de Jesus Cristo. Esse nome dignificava a mulher santa, casta e submissa, nos moldes das religiões abraâmicas como o Judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Problemão, não? Seria impossível que isso passasse sem reclamações. Mas fato é que Madonna, hoje, é sinônimo de ambição feminina e libertação sexual.
“Material Girl” simplesmente sintetiza toda essa ideologia que ilustra as sociedades ocidentais do século XXI. Madonna é mais do que uma mulher de carne e osso. Ela é uma combinação pós-moderna de signos. Madonna somos nós. Vivemos num mundo materialista, e somos garotos e garotas, homens e mulheres materialistas. O que nos importa senão o status, a imagem? O jeito “patricinha” de levar a vida provém desse momento. A barriga de fora, os adereços “católicos”, os chicletes, tudo isso passa por Madonna. Não há dúvidas que essa ideologia reflete o estado degradante das relações humanas, hoje.
Diante desse mundo tão pobre, tão fluido, tão carente de discussões mais profundas, o símbolo Madonna contribui para uma manutenção de valores, vigora como um monumento móvel lembrando a todos, com seus cabelos loiros e seu corpo escultural, que devem ser perfeitos, felizes e ambiciosos. Em dezembro, o Maracanã será palco de mais uma manifestação massiva do materialismo, com seres humanos em estado de êxtase na platéia e uma Madonna cinqüentona, mas com tudo em cima, no palco cantando sucessos do álbum “Hard candy” e os clássicos imortais de sua carreira.
Em tempo: o ser humano que vos articula essa tese já garantiu o ingresso.
Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com) Publicado no JL Méier, edição de Novembro de 2008.

Detalhes que definem uma prefeitura

Depois de um primeiro turno caracterizado pelo fenômeno do voto útil anti-Crivella, as eleições 2008 para prefeitura do Rio de Janeiro são definidas num segundo turno disputadíssimo com vitória de Eduardo Paes do PMDB sobre Fernando Gabeira do PV por uma diferença de 55 mil votos, o equivalente a 1,6% dos votos válidos. Paes dedicou a vitória ao governador Sérgio Cabral

Às 20 horas e 26 minutos da noite do dia 26 de outubro de 2008, já estava definido o novo prefeito do município do Rio de Janeiro. Com 50,83% dos votos válidos, o candidato Eduardo Paes do PMDB derrotou Fernando Gabeira do PV que ficou com 49,17% da preferência do eleitorado. Além de chamar atenção pela disputa acirradíssima no segundo turno, as eleições marcaram pelas surpresas e por alguns detalhes que a definiram.
Na reta final do primeiro turno, uma “onda verde” começou a ganhar força. As pesquisas de intenção de voto apontavam um segundo turno entre Paes e Marcelo Crivella (PRB), candidato ligado a Igreja Universal do Reino de Deus. Diante desse quadro, o eleitorado procurou seguir a perspectiva do voto útil. Dentre os candidatos que corriam por fora, Fernando Gabeira (PV) apresentou-se como uma saída para uma forte parcela da população, talvez em função de sua aposta numa campanha de não agressão aos outros candidatos e de não poluição da cidade, que, certamente, fez sucesso diante dessa discussão ambiental mundial. Outro motivo se enraíza na aliança estabelecida com o PSDB, que favoreceu a captação de um eleitorado de direita que ainda vê comunista em baixo da cama e, portanto, se assusta com a cor vermelha nas bandeiras de Jandira Feghalli (PCdoB). Para muitos, o PV aparecia como uma possibilidade de mudança sem estar conectado a fortes questões sociais. Gabeira é ligado a uma esquerda, indiscutivelmente, mas quando se associa ao PSDB tira esse peso das costas, viabilizando a angariação dessa parte conservadora do eleitorado – que esquece suas participações na luta armada e da tanga que usava na praia de Ipanema.
Enquanto o Jornal do Brasil preferiu não pautar a “onda verde”, o Globo deixou clara sua posição anti-Crivella apontando uma disputa voto a voto entre o candidato do PRB e Gabeira, no dia das eleições. Muitos eleitores mudaram o voto na manhã do dia 5 de outubro, o que transtornou os outros candidatos que acusariam a mídia e os institutos de pesquisa pelas suas derrotas. Fato é que o resultado das urnas provou que Gabeira ganhava mesmo força, e foi além: evidenciou a prática em massa do chamado voto útil. Afinal, Gabeira não alcançou Crivella. Gabeira passou-o, e por muito – 5 pontos percentuais. Paes terminou com 32%, Gabeira 25% e Crivella 20% dos votos.
O segundo turno começou com a definição dos apoios. Eis o primeiro detalhe que definiria as eleições. Enquanto Paes recebeu o apoio de, praticamente, todos os partidos, Fernando Gabeira recebeu-o de apenas um. E talvez fosse melhor não receber de nenhum. Tratava-se do DEM de César Maia, um verdadeiro monstro aos olhos do senso comum. O candidato verde haveria de comer o pão que o diabo amassou em função disso.
Mas as surpresas continuaram no início do segundo turno, evidenciando que entender cabeça de eleitor não é tarefa fácil. A primeira coisa que veio à mente daqueles que procuravam prever os resultados do segundo turno foi: eleitor de Crivella não vota em Gabeira em hipótese. Segundo essa perspectiva, Paes, certamente, manteria a dianteira. No entanto, a pesquisa do Datafolha divulgada no dia 9 de outubro indicou 43% das intenções de voto para Gabeira contra 41% para Paes. O embate, definitivamente, prometia fortes emoções.
No primeiro debate na TV, realizado pela Rede Bandeirantes, já foi possível delinear a face de cada campanha. Eduardo Paes era o candidato das realizações. Cheio de promessas e com uma retórica impecável, levou a melhor, levemente, em todos os seguintes debates. Apoiado pela “máquina” administrativa de Sérgio Cabral e Lula, se calcava na idéia da união de forças municipais, estaduais e federais em torno de melhorias para a cidade, mostrando sempre amplos conhecimentos sobre ela. Fernando Gabeira era o “azarão”, ex-militante, com promessas menos objetivas e um discurso universalista. Pretendia não ser “mais um prefeito”, e mudar certos paradigmas.
Na Band, Eduardo começou a profanar a associação entre Gabeira e César Maia, prática que permaneceria por toda a campanha. Gabeira defendia-se:
- Candidato Paes, o senhor sempre, ao falar do atual prefeito César Maia, faz questão de colocar que ele apóia a minha campanha. Mas eu só o encontrei cinco vezes na vida. Você é cria dele. Participou ativamente do seu primeiro mandato. Portanto, sempre que chamar atenção para isso, vai ouvir! – esbravejou.
No entanto, a argumentação de Gabeira era facilmente contornada por Paes. O PMDBista não cansou de afirmar que saiu de perto de César Maia quando observou que as coisas não iam bem no segundo mandato, álibi bastante convincente. O peso Maia ficou mesmo nas costas de Gabeira.
Outro detalhe que pode ter definido as eleições foi a inteligência de Paes para captar o ponto fraco de Gabeira: o conhecimento sobre a área total da cidade. Gabeira estava preparado para tudo, sem dúvida. Mas Paes, no debate da TV Globo, fez questão de perguntar duas vezes sobre áreas específicas da zona oeste da cidade, fazendo Gabeira ter de pisar em ovos. O candidato verde respondeu uma das questões em apenas 30 segundos, sem convencer, o que surpreendeu o próprio Paes, que gaguejou antes de engatar a réplica.
Apesar das tensões, os debates tiveram seus momentos de descontração. No Jornal do Brasil, o mediador e editor-chefe Tales Faria esqueceu de fazer uma pergunta a Gabeira, que não deixou escapar a oportunidade:
- Parece que estou jogando fora de casa. – brincou o candidato do PV, apressando-se no desagravo – Eu sei que isso é acidental, acontece...
Em meio aos risos da platéia, Tales manteve o bom-humor:
- Eu já ia pedir direito de resposta.
Depois de oito debates, as campanhas chegavam ao fim no dia 26 de outubro. As pesquisas dos institutos Ibope e Datafolha, na véspera das eleições apontavam vitória de Paes com 51% dos votos, o que se confirmou nas urnas. Depois do fator Maia e do discurso inteligente de Paes, surge o terceiro detalhe que pode ter definido a eleição: o feriado estadual do dia 28, terça-feira, é antecipado pela administração estadual para segunda-feira 27. A porcentagem de abstenção nas urnas foi de 20,25%, ou seja, altíssima. A julgar pela diferença pequena que decidiu a eleição e pelo fato do eleitorado de Gabeira ser composto por classes mais privilegiadas financeiramente, é possível dizer que Gabeira poderia ter perdido votos de eleitores que preferiram viajar no feriadão.
Não há dúvidas que uma eleição desse nível de disputa é decidida por detalhes, sejam eles quais forem. Mas também evidencia, de certa forma, que os eleitores cariocas depararam-se com dois candidatos, no mínimo, preparados para ter nas mãos uma prefeitura. O vencedor foi Eduardo Paes, que dedicou a vitória ao governador Sérgio Cabral:
- Dedico esta vitória ao homem que mudou a maneira de se fazer política no Rio, o governador Sérgio Cabral, que é o grande responsável por essa vitória. A partir de amanhã, vamos unir esta cidade – afirmou o prefeito eleito.

Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

Melancolia em estado puro

Bandas pós-punk projetavam uma imagem melancólica e sombria, mas cheia de atitude intelectual


Talvez não exista um período na história do rock tão execrado pela crítica como os anos 80. Há quem diga que durante os "eighty’s" fora decretada a morte do rock. Mas um olhar mais atento mostra que nessa época fazia-se muita coisa boa. Por um lado a "new wave" investia em um som bem jovem, animado e dançante. Por outro surgia um som bem "dark" vinculado a uma ideologia que em termos gerais cultuava a tristeza e a melancolia. Esse som seria chamado de Pós-punk.
Porque pós-punk? Após o auge do movimento punk que tinha como característica uma atitude rebelde, surgem bandas também de atitude, mas com um caráter mais intelectual. Mesmo assim, notam-se heranças punk no "pós-punk" como por exemplo as músicas curtas e diretas. Nas letras, o mesmo niilismo de revolta, de descrença no futuro. Agora, acrescido da tristeza, depressão e ressentimento.
Fato é que a partir da segunda metade dos anos 70 essa "tribo dark" começa a surgir majoritariamente na Inglaterra: Joy Division, Bauhaus, The Cure.
No entanto, no Brasil, até meados dos anos 80 não se ouvia falar em nada disso. A onda era mesmo a new wave que, mais comercial e com influências da cultura pop, fervilhava na mídia. O que hoje chamamos "Pós-punk" era tão underground, tão obscuro que o mundo, com exceção dos pequenos clubes da Inglaterra, ainda não havia tomado conhecimento de sua existência nem alternativamente. O alternativo da época era a própria new wave.
O panorama muda apenas em 1984 quando num dado momento aquilo se projeta para fora da Inglaterra. Começam então a brotar nos meios de comunicação aqueles músicos de cabelo espicaçado, vestidos de preto. O aparecimento da banda, então desconhecida, "Bauhaus" no filme "Fome de viver" de 1982, estrelado por David Bowie, ajudou no processo.
As primeiras bandas a despontar foram o "The cure", "The mission", "Bauhaus" e o "Siouxie and the banshees" com o single "cities in dust" de 1985. O The Cure conseguiu sucesso com o álbum "The top" (1984), fazendo todos acreditarem ser esse o primeiro álbum da banda. Apenas posteriormente, hits como "Boys don’t cry" seriam desenterrados.
O cure é sem dúvida uma das bandas que, com a liderança de Robert Smith, também integrante da Siouxie and the Banshees, mostrou ter muita qualidade. Na sua primeira fase, e melhor para muitos, gravou álbuns como "Seventeen seconds" e o pesado "Pornography", cuja primeira faixa "One hundred years" já começa com o verso "it doesn’t matter if we all die" (Não importa se todos morrermos). O sucesso comercial chega com o álbum "The head on the door" das faixas "In between days" e "Close to me". Mas só em 1986 que o Cure se torna de fato um fenômeno de popularidade com o lançamento da compilação "Staring at the sea – the singles", que trazia a faixa "Boys don’t cry", um verdadeiro hino dos anos 80. Nesta altura Robert Smith já adotava o visual através do qual tornou-se ícone "pós-punk": lábios borrados de batom, olhos pintados e cabelo totalmente despenteado. Depois disso, a banda ainda grava em 1989 "Disintegration" álbum sucesso de crítica, onde Robert Smith fala, através das letras, sobre a desintegração das coisas, desde relacionamentos até a própria vida.
Outra banda de muito reconhecimento é o "Joy division" que só passa a fazer sucesso bem depois de seu término em 1980. É isso mesmo. Com o suicídio do vocalista Ian Curtis, o resto da banda formou o "New order" que em 1983 estourou com o hit "Blue Monday"(Techno-Pop). Só nesse momento que se olhou para o passado do "No" e se deu de cara com o som daquela banda de Manchester com melodias densas e depressivas, cujo líder, que sofria com crises de epilepsia e mantinha um affair extra-conjugal, enforcou-se aos 23 anos de idade. O filme "Control" (2007) com direção de Anton Corbijn conta a história de Curtis. O grande hit do "Joy Division" é sem dúvida "Love will tear us apart". Uma curiosidade interessante que evidencia o caráter "barra-pesada" do Division é a origem do nome da banda. Na tradução, "Joy division" significa "divisão do prazer", nome da área onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e "oferecidas" sexualmente aos oficias nazistas no romance "House of dolls" de Karol Cetinsky. Bem sinistro.
Outros garotos que, mesmo não adotando um visual dark, figuraram com muita força no contexto do "pós-punk" foram os integrantes do "The Smiths". Liderados pelo vocalista e compositor de personalidade forte e voz inconfundível Steven Patrick Morrisey, os Smiths estouraram em 1984 com seu primeiro álbum que levou o nome da banda e alcançou a segunda posição no ranking do reino unido. A faixa de grande sucesso foi "This charming man". Johnny Marr já começava a demosntrar seu grande talento nos riffs de guitarra.
O segundo álbum alcaçou o primeiro lugar nas paradas com o hit "How soon is now". Com o nome de "Meat is murder" ele é, além de um álbum de rock, um manifesto vegetariano. Morrissey critica Deus e o mundo nas letras das músicas. A faixa "Meat is murder" é realmente bem pesada e triste, mostrando a crueldade da relação entre homem e animal.
Em julho de 1986 os Smiths lançam o disco que muitos consideram ser sua obra-prima: The Queen is dead. Destaque para as faixas "Bigmouth Strikes Again" e "There Is A Light That Never Goes Out", canção muito depressiva como manda o figurino. No refrão ouvem-se os versos "…to die by your side is such a heavenly way to die…" (morrer ao seu lado seria uma bela maneira de se morrer).
Mas ainda existem letras mais depressivas que essa como a das música "I know it’s over" (Sei que está termindo) e "Asleep" (desacordado), que narra um suicídio.
Os Smiths ainda fizeram sucesso com os singles "Ask" e "Panic" e com o album "Strangeways, here we come" de 1987.
Um olhar mais atento às letras de Morrissey evidencia seu talento. Trata-se de um compositor e tanto. Sua carreira solo segue de pé até hoje.
Além dessas bandas ícones do "pós-punk" pode-se citar "Cocteau Twins", "Echo and the Bunnyman", "Sister of Mercy", "The Mission" e o "The Cult".
Talvez quem tenha mais perto de definir o pós-punk, mesmo que tenha sido por acaso, foi Bernard Albrecht, guitarrista do Joy Division. Ele fazia um comentário à respeito do filme "Nosferatu", clássico do cinema, quando acabou praticamente definindo o caráter da música dark ou pós-punk. Declarou o músico: "A atmosfera é realmente maléfica, mas você se sente à vontade dentro dela".

Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com) - publicado no JL Méier, edição de Julho de 2008.

A hora do espanto

Origens, ícones e clássicos do terror


Atualmente, os filmes que se enquadram no gênero terror costumam trazer o medo à telona através de muito suspense e acima de tudo muito barulho.
Mas esse gênero tem suas origens no início do século XX e já passou por dias melhores nos quais o medo era muito mais psicológico e permanecia por mais tempo na mente das platéias.
O primeiro longa-metragem de caráter terrorífico é a produção alemã "O gabinete do Dr.Caligari" (1919) de Robert Wiene. Considerado uma verdadeira obra-prima do cinema, retrato do expressionismo alemão, o filme conta a história do hipnotizador Caligari, que se apresenta num parque de diversões com seu médium Cesare, um sonâmbulo que mata várias pessoas sob hipnose e às ordens de seu mestre. O filme trata no fundo do horror da mente. O subconsciente funcionando como "inimigo" interno, controlando nossas ações.
A partir daí até os dias de hoje, o terror vai consagrando-se mundialmente como gênero cinematográfico. Em 1921, temos o lançamento de "Nosferatu", de Murnau, o primeiro dos grandes filmes de Vampiro, adaptação não-oficial de Drácula de Bram Stoker. "O vampiro da noite" (1958) de Terence Fisher mantém o alto nível com um ótimo Christopher Lee no papel do Conde Drácula.
Em 1931, o romance "Frankstein" de Mary Shelley é adaptado para o cinema com direção de James Whale. Nascia mais um vilão (ou herói para os fãs) do terror.
Os primeiros grandes sucessos de bilheteria surgiram nos anos 70. "O Exorcista" (1973) de William Friedkin, eterno clássico do horror, conseguiu a façanha de ser o primeiro filme de terror a ser indicado à categoria principal do Oscar. E ninguém esquece a volta de 360 graus da cabeça de Regan, a menina que sofre possessão do demônio.
Mas cena clássica mesmo é a do assassinato no chuveiro de um dos quartos do Motel Bates em "Psicose" (1960) de Alfred Hitchcock, ícone do terror. A trilha sonora de Bernard Herrman será lembrada eternamente.
Ainda podem ser citadas outras cenas inesquecíveis do horror. Em "O iluminado" (1980) de Stanley Kubrick, Jack Nicholson, com atuação assombrosa, protagoniza uma dessas cenas: com um machado em punho, destrói a porta do banheiro onde está escondida a sua mulher apavorada. Johnny Depp, que faz sua estréia numa grande produção em "A hora do pesadelo" (1984) de Wes Craven, também participa diretamente de uma cena marcante do terror na qual seu personagem é reduzido a miúdos após ser "engolido" pela própria cama. E quem esquece a cena em que Michael Myers invade o armário onde está escondida a pobre Laurie (interpretada pela "rainha do grito" Jamie Lee Curtis) em "Halloween" (1980) de John Carpenter?
Myers que faz parte da lista dos famosos assassinos desvairados e imortais do cinema. Além dele podemos citar o inesquecível e destruidor Jason Voorhees de "Sexta-feira 13" (1980) de Sean S. Cunninghan. Jason figura talvez como o maior sanguinário do cinema, matando todo e qualquer ser vivo que encontre pela frente. Outro inesquecível é Freddy Krueger de "A hora do pesadelo"(1984) de Wes Craven. Krueger na verdade ataca suas vítimas apenas em seus sonhos. Os personagens acabam travando uma batalha contra o sono, visto que acordados permanecem à salvo. Mas também quando caem no sono é pra não acordar mais. Ainda merece citação o maníaco da serra elétrica Leatherface de "O massacre da serra elétrica" (1974) de Tobe Hooper, filme baseado em fatos reais.
Apesar de enquadrar-se também no gênero ficção científica, "Alien – o oitavo passageiro" (1979) de Ridley Scott carimbou sua importância no cinema de terror devido à presença da criatura de outro planeta que invade a nave Nostromo, cuja tripulação investigava uma transmissão emitida em um planeta desconhecido.
Outro que foge um pouco ao gênero terror, mas pode ser incluído como marcante é "Tubarão" (1975) de Steven Spielberg, que deixou as pessoas com um enorme receio de banhar-se no mar por muito tempo. A fantástica trilha sonora de John Williams é inesquecível.
Em 1982, "Poltergheist" de Tobe Hooper inicia a onda de filmes de espíritos. Na trama, uma família é atormentada por fantasmas em sua casa. Mais atual, "O chamado" também trata de espectros. O assustador fantasma de Samara sai da TV para matar aqueles que viram uma fita de vídeo.
Um ícone eterno do terror que merce menção é Vincent Price que teve sua atuação mais marcante em "O abominável Dr.Phibes" (1971) de Robert Fuest. Ele interpreta (adivinhem!) o Dr.Phibes, que após acidente fica deformado e perde a mulher Victoria. Acreditando que a equipe de cirurgiões foi incopetente por não salvá-la ele inicia uma meticulosa e abominável vingança.
O mesmo Price estrelou "A mosca" (1986) de David Cronenmberg, remake de "A mosca da cabeça branca" (1958) de Kurt Newmann. O filme conta a história de um cientista que acidentalmente se funde a uma mosca doméstica ao conduzir uma experiência de tele-transporte. O homem passa a desenvolver características físicas de uma mosca. Por mais tosca que seja a proposta, o filme se mostra interessantíssimo.
Toscas mesmas são algumas produções chamadas ironicamente de cinema "terrir" como "Re-animator" (1985) de Stuart Gordon, cujo enredo remete ao clássico Frankstein. Um obssecado médico inventa fórmula capaz de re-animar seres humanos (e até mesmo suas partes desmenbradas). O filme é um verdadeiro show de horrores (e de risos também), onde até cabeças decepadas falam.
Em "A hora do espanto" (1985) de Tom Hollan, assiste-se um filme de caráter descontraído, bem-humorado. Mesmo assim é classificado como terror. O jovem Charley acredita ter um vampiro como vizinho ao notar comportamentos estranhos na casa ao lado pela janela de seu quarto. Apesar de ninguém, nem mesmo sua namorada, acreditar na sua versão dos fatos, a verdade logo aparece mostrando que ele estava certo.
Outros títulos mereciam citação, mas de agora em diante é com voces. Portanto, dirija-se a video-locadora mais próxima e inicie as sessões de terror. Não esqueça da pipoca e, é claro, de apagar a luz.

Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com) - publicado no JL Méier, edição de Maio de 2008.