quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Moral: cinismo ou espiritualidade?


Tudo começou numa conversa sobre astrologia com a namorada, numa bela tarde ensolarada na praia do Arpoador. Papo vai, papo vem, e chega-se a uma discussão acerca de uma possível espiritualidade envolvendo ateísmo e ceticismo. Disso, emerge a questão da moralidade. Confuso, não? Explico.

Disse um astrólogo em entrevista a Marília Gabriela no GNT crer que ateus, muitas vezes são aqueles mais espirituais, ainda que não o percebam. Pus-me a refletir. Que diabos ele quis dizer? Parece doideira atribuir espiritualidade a um ateu. Enfim. Procurei chegar lá. E penso ter conseguido.
Para tanto, pautei-me por exemplificações práticas: ao passo que um ateu age moralmente ou eticamente, ele desenvolve uma atitude espiritual. O que quero dizer? Um ateu que baseia suas ideologias e ações no plano da vida material - e nada mais - deveria, por lógica, agir de acordo com seus benefícios. A praticidade de suas realizações deveria dar sentido apenas a sua existência da melhor forma possível. Se não há nada além das percepções materiais, não há razão para agir segundo uma moral. O que chamo de moral não é deixar de furar fila. É deixar de furar fila por uma complexa razão espiritual. Se o ateu deixa de fazê-lo porque tem medo de ser linchado, aí são outros quinhentos – nada feito. Mas se ele o faz por crer que aquilo o beneficia de alguma maneira, ele está agindo espiritualmente. (O astrólogo deve ter colegas que fazem coisas desse tipo) Essa foi a maneira pela qual acreditei ter desvendado a questão.
Mas isso deu margem para mais pensamentos envolvendo moral e interdições. Para que o leitor disfrute de minhas considerações, deverá partir do mesmo pressuposto do qual parti: em circunstâncias “naturais” (muitas aspas), o ser humano deveria – tendo a chance de fazê-lo sem conseqüências desagradáveis – furar filas (uso essa prática apenas como exemplo). Afinal, gatos não fazem fila diante de uma série de pedaços de salmão. Come maior quantidade o que for mais troglodita... Posto isso, me pergunto: porque formamos filas?

Tenho problemas muito particulares com aqueles que não pautam suas atitudes pela boa civilidade, materializada na figura da fila. Isso decorre das desagradáveis tardes em que resolvo me dirigir ao estádio do Maracanã para assistir partidas do Flamengo. O vício me impede de deixar essa prática de lado. Ainda assim, tenho consciência da roubada em que estou me metendo. A disputa pelo ingresso é sempre “na marra”. Ao invés de filas, vemos um mar de pessoas abarrotadas nas bilheterias – metade delas sem qualquer senso de cidadania, agindo de acordo com o seu interesse e mais nada. Como os gatos... de qualquer maneira isso me traumatizou.
Traumas a parte, me pergunto: porque diabos a furação de fila tanto me incomoda? (mais do que denúncias de superfaturamento em obras públicas) – porque eu sinto na pele o sofrimento que decorre dessa prática. Quando somos vítimas diretas sofremos mais e, portanto, nos empenhamos mais em ser “civilizados”. Porque quando uma criança morre vítima da criminalidade urbana, seus pais passam a agir politicamente em favor da paz? Porque depois que sofremos um assalto, nos indignamos mais do que quando estamos aproveitando uma boa praia? Porque muitos derramam lágrimas no cinema e quando saem do mesmo partem para um bom hambúrguer sem posterior indigestão, ou pior, fazem graça de um aleijado? Tudo isso acontece porque, na verdade, só nos incomodamos quando sentimos na pele ou quando a desgraça se coloca estampada na nossa cara, incomodando.
Aonde quero chegar? – perguntam vocês. Quero dizer que a suposta moralidade da qual tanto falamos se estabelece através de interdições de cunho cínico. Se meu trauma com filas aumenta meu ódio por aqueles que não aderem-na é porque, para mim, não se trata de uma questão moral aderir. Mas sim de uma questão pessoal: ela me beneficia pois de troglodita, nada tenho,e, portanto, na força, perderei.
Conclusão: sou um escroto de marca maior.

FIM

Toda a argumentação acima é apenas uma reflexão. Não acredito em tudo o que foi dito. Agi como “advogado do diabo”.
Na verdade, eu acredito na moral cínica, mas TAMBÉM no que chamo de moral espiritual. Tendo explicado a primeira nos parágrafos acima, classifico a segunda como uma atitude inclassificável. Ela existe para além de qualquer explicação. É simplesmente algo bom. É amor.
Ainda não criei coragem para aderir totalmente ao ceticismo, ainda que seja um profundo admirador do mesmo. Mas, mesmo observando o mundo por uma ótica bastante pessimista, ainda acredito no amor. Ainda preciso disso. A ingenuidade tem de tomar conta de pelo menos 5% do meu ser, do contrário fico louco. Não quero me transformar num gato, num bicho (nada contra os gatos, mas contra a maneira como eles disputam comida). Quero crer que as atribuições cerebrais características a espécie humana – as quais chamamos de inteligência – possam ser usadas em função da civilidade e do amor. Quero crer que não existe apenas a moral cínica, mas também a espiritual.
Concluo que quando não furo filas, quando não me deixo corromper, quando procuro agir sem prejudicar o próximo, creio estar interditando ações egoístas a partir da moral cínica (sempre), mas também da moral espiritual.

É Natal, não é mesmo? Hoje, abracei o Amor. Hehehe Ainda não virei um ateu cético. O tempo, provavelmente, dará conta disso.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom...li quase tudo q vc escreveu aqui, menos o do menino listrado por ter medo de ver spoilers...eu raramente escrevo comentários em blogs e etc por dificilmente ver algo q presta ou q tenha algum conteudo uhuhuh, sem contar que raramente os autores veem os comentarios, mas depois de ver o seu orkut pelo da Priscila, q é minha amigona, eu entrei e me surpreendi, positivamente eh claro. Então ,pela qualidade do material, eu quero parabenizá-lo. Abraços

ps: estou postando como henrique, mas meu nome é Leonardo coelho, e, como vc, estudo na facha, só que de tarde