terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Reflexões Histórico-cinematográficas

O conteúdo desse texto foi utilizado como trabalho final de uma discuplina do curso de história da UFRJ. De qualquer maneira, apesar das especificidades, valida alguns filmes como essenciais para a percepção de certos aspectos característicos de nossos tempos

Remetendo-nos a Marshall Sahlins que usa o beisebol para refletir as imprevisibilidades da História, e pautando-se pela obra de Emir Sader "Cuba, Chile e Nicarágua", podemos dizer que, quando Allende conta seu plano político - em relação a sua ida a TV para convocação de um plebiscito - para o general Pinochet, um slow motion “historiográfico” entra em cena. Esse fato seria o home run de Bobby Thomson da história do Chile, ou seja, um fator determinante para o 11 de setembro de 1973. O ultimato golpista a Salvador Allende foi seguido de um bombardeio e de um golpe de estado que se consagrou como a pá de cal para a tentativa socialista.
De fato o Chile foi submetido a um regime desse tipo. Segundo Sader, alguns fatores como a estabilidade econômica e o surgimento precoce de uma classe operária no país – em relação aos demais países latino-americanos – viabilizaram a eleição de Allende. Enquanto a maioria dos “vizinhos” vivia sob repressão, o Chile caminhava em outra direção. Mas não por muito tempo, afinal, como ressalta Eduardo Valdés, o período caracteriza-se por “estreita conexão com uma série de fenômenos internacionais”, entre eles o que se entende por Guerra Fria. A contestação ao sistema foi duramente reprimida pelos que o encabeçavam e, talvez, o caso chileno tenha sido o que melhor reflete o uso da violência, e sua estreita ligação com a política, em relação às práticas repressivas realizadas pelo Estado, a partir do golpe.
É diante desse contexto que o filme “Machuca” de Andrés Wood trabalha a arquitetura social e as mudanças que ocorrem num, relativamente, curto espaço de tempo no Chile sob o olhar de um menino. Ou seja, de um dia para o outro, passa a ser cool se relacionar com colegas que residem em regiões bastante pobres e, de repente, esses colegas viram inimigos número um da sua família. Até que ponto isso não é absurdamente confuso para uma criança? Hoje, sua mãe acaricia o coleguinha pobre e, amanhã, a mesma mãe apóia uma junta militar que se dará ao direito de exterminá-lo. Isso já é confuso para um adulto, quanto mais para uma criança.
Outro filme que se prontifica a tratar do mesmo tema é “A culpa é do Fidel” de Julie Gavras, que narra a história de uma menina que, filha de pais militantes e neta de avós conservadores, vive um verdadeiro drama ao tentar entender o que se passa. De um lado a empregada, anticomunista até o último fio de cabelo, joga a culpa por qualquer coisa em Fidel Castro. Do outro, seus pais protestam a favor do regime de Allende no Chile. E ela – uma verdadeira lady até então – acha aquilo tudo, em princípio, uma grande chatice.
No caso de “Machuca”, os acontecimentos políticos ligados à subida de Allende ao poder permitem que Gonzalo e Pedro estudem na mesma sala. Nasce daí uma amizade entre um menino mais rico e outro mais pobre. Tudo vai muito bem até que as manifestações a favor e contra o governo de Allende tomam as ruas. Nesse ponto, chamo atenção para algo muito interessante que é possível ser notado no filme: os meandros das relações sociais. É bom que se afaste das definições binárias e simplistas. Pedro Machuca e seu vizinho eram pobres, logo militavam a favor de Allende. (Pééé) Errado. Os dois apenas aproveitavam-se dos acontecimentos políticos para vender bandeirinhas tanto nas manifestações comunistas, quanto nas golpistas (!).
A partir do momento em que a mãe de Gonzalo briga ferrenhamente com sua amiga, vizinha de Machuca, tudo fica mais confuso na cabeça do menino. Ao mesmo tempo em que o garoto mantém a amizade, internaliza o conflito político e acaba tomando parte dele quando chama o amigo de “favelado”. Teria ele escolhido um lado, depois de ter estado por um tempo em cima do muro?
Na verdade, tudo o que envolve aquela situação é complexo demais para o garoto. Não há como ele tomar parte. Ele simplesmente gravita sem rumo diante das contradições dos discursos e das situações que se apresentam. No colégio, ele se nega a agredir o amigo. Algum tempo depois, o chama de “favelado”. Mas não se pode exigir lógica diante do quadro vivenciado por Gonzalo. A violência a qual é submetida a seus companheiros o choca. Sua amiga é alvejada e morre diante de seus olhos. O colega é levado. O vizinho espancado. Seu par de tênis Adidas passam a significar muito, afinal ele precisa sair do local. A imagem do soldado olhando para seus pés e permitindo sua fuga corresponde a vitória do sistema. A amizade ficou para trás, assim como o sonho da militância socialista.
Finalizo a análise apontando tanto “Machuca”, quanto “A culpa é do Fidel” como filmes essenciais para a reflexão acerca das simbologias e das construções conceituais (Múmias, barbudos, rojos, etc) e como isso pode ser uma grande bobagem aos olhos de quem não contempla tudo aquilo que envolve as questões políticas – crianças, por exemplo.
Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)