terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sensual e Materialista

Madonna é a personificação do ideal materialista que rege todas as relações humanas nesse início de século XXI

Que rufem os tambores! Dezembro celebrará a volta da rainha do pop ao Brasil depois de 15 anos. A turnê mundial Sticky & Sweet passará pelo Rio de Janeiro nos dias 14 e 15 e São Paulo nos dias 18, 20 e 21. No Rio, como não poderia deixar de ser, o Maracanã se encarregará de recebê-la. Aos cinqüenta anos de idade, Madonna parece não ter perdido nenhum vigor físico em comparação ao início dos anos 80, quando emergiu como fenômeno musical numa New York à beira do colapso: falida e abatida pela crise do petróleo.
Em 1978, os embalos de sábado à noite estão em primeiro lugar nas paradas de sucesso. A disco music alcança seu auge no momento em que o movimento punk entra em ruína. Os Sex Pistols se separam, Sid Vicious se suicida e a música pop começa a entrar em cena. O rock’n’roll abre espaço para o surgimento de movimentos como a new wave e o pós-punk, de caráter underground.
Na verdade, o momento é de transformações conectadas diretamente às ideologias políticas. A negação do sistema, característica do fim dos anos 60 deixa de ser martirizada. A idealização do revolucionário, da conscientização, do esclarecimento, da quebra de valores, característicos dos movimentos de contracultura e hippie dão lugar uma atitude também rebelde, porém de cunho liberal-capitalista. Ou seja, procura-se fugir das dualidades de um mundo em guerra fria, mas valoriza-se a imagem, o “ter”, em suma: o materialismo. Profeta ou não, John Lennon já dizia no início dos anos 70: “O sonho acabou”. E acabou mesmo.
Viver os anos 70 era encarar um mundo bi-polarizado. Comunistas de um lado, capitalistas do outro. Bem e mal, negro e branco, virgens e putas, assim eram postas as coisas, antagonicamente. Madonna sintetizou esse momento como ninguém. Musicalmente, uniu elementos punks, dançantes e da música disco europop, que pode ser exemplificada com “Born to be alive” de Patrick Hernandez - Madonna inclusive trabalhou como dançarina de Hernandez no início da carreira. No campo ideológico, abraçou um materialismo ousado ligado à sensualidade e, segundo alguns, à autenticidade, maneira polêmica de analisar o conceito Madonna.
Na biografia “Madonna, 50 anos” publicada recentemente, a autora Lucy O’Brien refere-se a Madonna como um ídolo pop “não mais pré-fabricado, mas autêntico.” Num mundo em que fervilha a indústria cultural, fazer sucesso sendo autêntico é meio difícil. Tudo bem que Madonna já surge com sua maneira própria de ser estrela, mas toda essa ideologia que a acompanha é uma construção. Tanto é que o público, de cara, entende sua mensagem e faz dela um fenômeno. Não há complexidade em Madonna. Há letras diretas e muitas vezes fúteis. As pessoas queriam aquilo, “falavam aquela língua”.
Junto com Madonna e seguindo seu estilo surge Cindy Lauper. Ambas exploram o rico universo do desejo adolescente feminino. Mas nada melhor que essa comparação para captar as particularidades de Madonna. Lauper apenas dizia – bem alto, admito – que “girls just wanna have fun” (garotas só querem se divertir). Madonna ia além. Muito além.
Em 1983 estoura o primeiro álbum com os sucessos “Lucky Star”, “Holiday” e “Everybody”, que bombou nas pistas. Gabando-se de muita ambição, como era de costume, Madonna dá a seguinte declaração no famoso programa norte-americano de TV American Bandstand: “Vou dominar o mundo”. De certa forma, não se pode negar que ela estava certa. No mesmo ano dessa declaração, 1984, Madonna atinge um nível absurdo de sucesso. O clássico “Like a virgin” dava nome ao álbum, que trazia o hino de Madonna nos anos 80, “Material girl”. A primeira causou bastante polêmica. Principalmente devido à origem do nome artístico Madonna. A palavra deriva do italiano. Mia Donna quer dizer Nossa Senhora, a Virgem Imaculada mãe de Jesus Cristo. Esse nome dignificava a mulher santa, casta e submissa, nos moldes das religiões abraâmicas como o Judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Problemão, não? Seria impossível que isso passasse sem reclamações. Mas fato é que Madonna, hoje, é sinônimo de ambição feminina e libertação sexual.
“Material Girl” simplesmente sintetiza toda essa ideologia que ilustra as sociedades ocidentais do século XXI. Madonna é mais do que uma mulher de carne e osso. Ela é uma combinação pós-moderna de signos. Madonna somos nós. Vivemos num mundo materialista, e somos garotos e garotas, homens e mulheres materialistas. O que nos importa senão o status, a imagem? O jeito “patricinha” de levar a vida provém desse momento. A barriga de fora, os adereços “católicos”, os chicletes, tudo isso passa por Madonna. Não há dúvidas que essa ideologia reflete o estado degradante das relações humanas, hoje.
Diante desse mundo tão pobre, tão fluido, tão carente de discussões mais profundas, o símbolo Madonna contribui para uma manutenção de valores, vigora como um monumento móvel lembrando a todos, com seus cabelos loiros e seu corpo escultural, que devem ser perfeitos, felizes e ambiciosos. Em dezembro, o Maracanã será palco de mais uma manifestação massiva do materialismo, com seres humanos em estado de êxtase na platéia e uma Madonna cinqüentona, mas com tudo em cima, no palco cantando sucessos do álbum “Hard candy” e os clássicos imortais de sua carreira.
Em tempo: o ser humano que vos articula essa tese já garantiu o ingresso.
Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com) Publicado no JL Méier, edição de Novembro de 2008.