Bandas pós-punk projetavam uma imagem melancólica e sombria, mas cheia de atitude intelectual
Talvez não exista um período na história do rock tão execrado pela crítica como os anos 80. Há quem diga que durante os "eighty’s" fora decretada a morte do rock. Mas um olhar mais atento mostra que nessa época fazia-se muita coisa boa. Por um lado a "new wave" investia em um som bem jovem, animado e dançante. Por outro surgia um som bem "dark" vinculado a uma ideologia que em termos gerais cultuava a tristeza e a melancolia. Esse som seria chamado de Pós-punk.
Porque pós-punk? Após o auge do movimento punk que tinha como característica uma atitude rebelde, surgem bandas também de atitude, mas com um caráter mais intelectual. Mesmo assim, notam-se heranças punk no "pós-punk" como por exemplo as músicas curtas e diretas. Nas letras, o mesmo niilismo de revolta, de descrença no futuro. Agora, acrescido da tristeza, depressão e ressentimento.
Fato é que a partir da segunda metade dos anos 70 essa "tribo dark" começa a surgir majoritariamente na Inglaterra: Joy Division, Bauhaus, The Cure.
No entanto, no Brasil, até meados dos anos 80 não se ouvia falar em nada disso. A onda era mesmo a new wave que, mais comercial e com influências da cultura pop, fervilhava na mídia. O que hoje chamamos "Pós-punk" era tão underground, tão obscuro que o mundo, com exceção dos pequenos clubes da Inglaterra, ainda não havia tomado conhecimento de sua existência nem alternativamente. O alternativo da época era a própria new wave.
O panorama muda apenas em 1984 quando num dado momento aquilo se projeta para fora da Inglaterra. Começam então a brotar nos meios de comunicação aqueles músicos de cabelo espicaçado, vestidos de preto. O aparecimento da banda, então desconhecida, "Bauhaus" no filme "Fome de viver" de 1982, estrelado por David Bowie, ajudou no processo.
As primeiras bandas a despontar foram o "The cure", "The mission", "Bauhaus" e o "Siouxie and the banshees" com o single "cities in dust" de 1985. O The Cure conseguiu sucesso com o álbum "The top" (1984), fazendo todos acreditarem ser esse o primeiro álbum da banda. Apenas posteriormente, hits como "Boys don’t cry" seriam desenterrados.
O cure é sem dúvida uma das bandas que, com a liderança de Robert Smith, também integrante da Siouxie and the Banshees, mostrou ter muita qualidade. Na sua primeira fase, e melhor para muitos, gravou álbuns como "Seventeen seconds" e o pesado "Pornography", cuja primeira faixa "One hundred years" já começa com o verso "it doesn’t matter if we all die" (Não importa se todos morrermos). O sucesso comercial chega com o álbum "The head on the door" das faixas "In between days" e "Close to me". Mas só em 1986 que o Cure se torna de fato um fenômeno de popularidade com o lançamento da compilação "Staring at the sea – the singles", que trazia a faixa "Boys don’t cry", um verdadeiro hino dos anos 80. Nesta altura Robert Smith já adotava o visual através do qual tornou-se ícone "pós-punk": lábios borrados de batom, olhos pintados e cabelo totalmente despenteado. Depois disso, a banda ainda grava em 1989 "Disintegration" álbum sucesso de crítica, onde Robert Smith fala, através das letras, sobre a desintegração das coisas, desde relacionamentos até a própria vida.
Outra banda de muito reconhecimento é o "Joy division" que só passa a fazer sucesso bem depois de seu término em 1980. É isso mesmo. Com o suicídio do vocalista Ian Curtis, o resto da banda formou o "New order" que em 1983 estourou com o hit "Blue Monday"(Techno-Pop). Só nesse momento que se olhou para o passado do "No" e se deu de cara com o som daquela banda de Manchester com melodias densas e depressivas, cujo líder, que sofria com crises de epilepsia e mantinha um affair extra-conjugal, enforcou-se aos 23 anos de idade. O filme "Control" (2007) com direção de Anton Corbijn conta a história de Curtis. O grande hit do "Joy Division" é sem dúvida "Love will tear us apart". Uma curiosidade interessante que evidencia o caráter "barra-pesada" do Division é a origem do nome da banda. Na tradução, "Joy division" significa "divisão do prazer", nome da área onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e "oferecidas" sexualmente aos oficias nazistas no romance "House of dolls" de Karol Cetinsky. Bem sinistro.
Outros garotos que, mesmo não adotando um visual dark, figuraram com muita força no contexto do "pós-punk" foram os integrantes do "The Smiths". Liderados pelo vocalista e compositor de personalidade forte e voz inconfundível Steven Patrick Morrisey, os Smiths estouraram em 1984 com seu primeiro álbum que levou o nome da banda e alcançou a segunda posição no ranking do reino unido. A faixa de grande sucesso foi "This charming man". Johnny Marr já começava a demosntrar seu grande talento nos riffs de guitarra.
O segundo álbum alcaçou o primeiro lugar nas paradas com o hit "How soon is now". Com o nome de "Meat is murder" ele é, além de um álbum de rock, um manifesto vegetariano. Morrissey critica Deus e o mundo nas letras das músicas. A faixa "Meat is murder" é realmente bem pesada e triste, mostrando a crueldade da relação entre homem e animal.
Em julho de 1986 os Smiths lançam o disco que muitos consideram ser sua obra-prima: The Queen is dead. Destaque para as faixas "Bigmouth Strikes Again" e "There Is A Light That Never Goes Out", canção muito depressiva como manda o figurino. No refrão ouvem-se os versos "…to die by your side is such a heavenly way to die…" (morrer ao seu lado seria uma bela maneira de se morrer).
Mas ainda existem letras mais depressivas que essa como a das música "I know it’s over" (Sei que está termindo) e "Asleep" (desacordado), que narra um suicídio.
Os Smiths ainda fizeram sucesso com os singles "Ask" e "Panic" e com o album "Strangeways, here we come" de 1987.
Um olhar mais atento às letras de Morrissey evidencia seu talento. Trata-se de um compositor e tanto. Sua carreira solo segue de pé até hoje.
Além dessas bandas ícones do "pós-punk" pode-se citar "Cocteau Twins", "Echo and the Bunnyman", "Sister of Mercy", "The Mission" e o "The Cult".
Talvez quem tenha mais perto de definir o pós-punk, mesmo que tenha sido por acaso, foi Bernard Albrecht, guitarrista do Joy Division. Ele fazia um comentário à respeito do filme "Nosferatu", clássico do cinema, quando acabou praticamente definindo o caráter da música dark ou pós-punk. Declarou o músico: "A atmosfera é realmente maléfica, mas você se sente à vontade dentro dela".