terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Detalhes que definem uma prefeitura

Depois de um primeiro turno caracterizado pelo fenômeno do voto útil anti-Crivella, as eleições 2008 para prefeitura do Rio de Janeiro são definidas num segundo turno disputadíssimo com vitória de Eduardo Paes do PMDB sobre Fernando Gabeira do PV por uma diferença de 55 mil votos, o equivalente a 1,6% dos votos válidos. Paes dedicou a vitória ao governador Sérgio Cabral

Às 20 horas e 26 minutos da noite do dia 26 de outubro de 2008, já estava definido o novo prefeito do município do Rio de Janeiro. Com 50,83% dos votos válidos, o candidato Eduardo Paes do PMDB derrotou Fernando Gabeira do PV que ficou com 49,17% da preferência do eleitorado. Além de chamar atenção pela disputa acirradíssima no segundo turno, as eleições marcaram pelas surpresas e por alguns detalhes que a definiram.
Na reta final do primeiro turno, uma “onda verde” começou a ganhar força. As pesquisas de intenção de voto apontavam um segundo turno entre Paes e Marcelo Crivella (PRB), candidato ligado a Igreja Universal do Reino de Deus. Diante desse quadro, o eleitorado procurou seguir a perspectiva do voto útil. Dentre os candidatos que corriam por fora, Fernando Gabeira (PV) apresentou-se como uma saída para uma forte parcela da população, talvez em função de sua aposta numa campanha de não agressão aos outros candidatos e de não poluição da cidade, que, certamente, fez sucesso diante dessa discussão ambiental mundial. Outro motivo se enraíza na aliança estabelecida com o PSDB, que favoreceu a captação de um eleitorado de direita que ainda vê comunista em baixo da cama e, portanto, se assusta com a cor vermelha nas bandeiras de Jandira Feghalli (PCdoB). Para muitos, o PV aparecia como uma possibilidade de mudança sem estar conectado a fortes questões sociais. Gabeira é ligado a uma esquerda, indiscutivelmente, mas quando se associa ao PSDB tira esse peso das costas, viabilizando a angariação dessa parte conservadora do eleitorado – que esquece suas participações na luta armada e da tanga que usava na praia de Ipanema.
Enquanto o Jornal do Brasil preferiu não pautar a “onda verde”, o Globo deixou clara sua posição anti-Crivella apontando uma disputa voto a voto entre o candidato do PRB e Gabeira, no dia das eleições. Muitos eleitores mudaram o voto na manhã do dia 5 de outubro, o que transtornou os outros candidatos que acusariam a mídia e os institutos de pesquisa pelas suas derrotas. Fato é que o resultado das urnas provou que Gabeira ganhava mesmo força, e foi além: evidenciou a prática em massa do chamado voto útil. Afinal, Gabeira não alcançou Crivella. Gabeira passou-o, e por muito – 5 pontos percentuais. Paes terminou com 32%, Gabeira 25% e Crivella 20% dos votos.
O segundo turno começou com a definição dos apoios. Eis o primeiro detalhe que definiria as eleições. Enquanto Paes recebeu o apoio de, praticamente, todos os partidos, Fernando Gabeira recebeu-o de apenas um. E talvez fosse melhor não receber de nenhum. Tratava-se do DEM de César Maia, um verdadeiro monstro aos olhos do senso comum. O candidato verde haveria de comer o pão que o diabo amassou em função disso.
Mas as surpresas continuaram no início do segundo turno, evidenciando que entender cabeça de eleitor não é tarefa fácil. A primeira coisa que veio à mente daqueles que procuravam prever os resultados do segundo turno foi: eleitor de Crivella não vota em Gabeira em hipótese. Segundo essa perspectiva, Paes, certamente, manteria a dianteira. No entanto, a pesquisa do Datafolha divulgada no dia 9 de outubro indicou 43% das intenções de voto para Gabeira contra 41% para Paes. O embate, definitivamente, prometia fortes emoções.
No primeiro debate na TV, realizado pela Rede Bandeirantes, já foi possível delinear a face de cada campanha. Eduardo Paes era o candidato das realizações. Cheio de promessas e com uma retórica impecável, levou a melhor, levemente, em todos os seguintes debates. Apoiado pela “máquina” administrativa de Sérgio Cabral e Lula, se calcava na idéia da união de forças municipais, estaduais e federais em torno de melhorias para a cidade, mostrando sempre amplos conhecimentos sobre ela. Fernando Gabeira era o “azarão”, ex-militante, com promessas menos objetivas e um discurso universalista. Pretendia não ser “mais um prefeito”, e mudar certos paradigmas.
Na Band, Eduardo começou a profanar a associação entre Gabeira e César Maia, prática que permaneceria por toda a campanha. Gabeira defendia-se:
- Candidato Paes, o senhor sempre, ao falar do atual prefeito César Maia, faz questão de colocar que ele apóia a minha campanha. Mas eu só o encontrei cinco vezes na vida. Você é cria dele. Participou ativamente do seu primeiro mandato. Portanto, sempre que chamar atenção para isso, vai ouvir! – esbravejou.
No entanto, a argumentação de Gabeira era facilmente contornada por Paes. O PMDBista não cansou de afirmar que saiu de perto de César Maia quando observou que as coisas não iam bem no segundo mandato, álibi bastante convincente. O peso Maia ficou mesmo nas costas de Gabeira.
Outro detalhe que pode ter definido as eleições foi a inteligência de Paes para captar o ponto fraco de Gabeira: o conhecimento sobre a área total da cidade. Gabeira estava preparado para tudo, sem dúvida. Mas Paes, no debate da TV Globo, fez questão de perguntar duas vezes sobre áreas específicas da zona oeste da cidade, fazendo Gabeira ter de pisar em ovos. O candidato verde respondeu uma das questões em apenas 30 segundos, sem convencer, o que surpreendeu o próprio Paes, que gaguejou antes de engatar a réplica.
Apesar das tensões, os debates tiveram seus momentos de descontração. No Jornal do Brasil, o mediador e editor-chefe Tales Faria esqueceu de fazer uma pergunta a Gabeira, que não deixou escapar a oportunidade:
- Parece que estou jogando fora de casa. – brincou o candidato do PV, apressando-se no desagravo – Eu sei que isso é acidental, acontece...
Em meio aos risos da platéia, Tales manteve o bom-humor:
- Eu já ia pedir direito de resposta.
Depois de oito debates, as campanhas chegavam ao fim no dia 26 de outubro. As pesquisas dos institutos Ibope e Datafolha, na véspera das eleições apontavam vitória de Paes com 51% dos votos, o que se confirmou nas urnas. Depois do fator Maia e do discurso inteligente de Paes, surge o terceiro detalhe que pode ter definido a eleição: o feriado estadual do dia 28, terça-feira, é antecipado pela administração estadual para segunda-feira 27. A porcentagem de abstenção nas urnas foi de 20,25%, ou seja, altíssima. A julgar pela diferença pequena que decidiu a eleição e pelo fato do eleitorado de Gabeira ser composto por classes mais privilegiadas financeiramente, é possível dizer que Gabeira poderia ter perdido votos de eleitores que preferiram viajar no feriadão.
Não há dúvidas que uma eleição desse nível de disputa é decidida por detalhes, sejam eles quais forem. Mas também evidencia, de certa forma, que os eleitores cariocas depararam-se com dois candidatos, no mínimo, preparados para ter nas mãos uma prefeitura. O vencedor foi Eduardo Paes, que dedicou a vitória ao governador Sérgio Cabral:
- Dedico esta vitória ao homem que mudou a maneira de se fazer política no Rio, o governador Sérgio Cabral, que é o grande responsável por essa vitória. A partir de amanhã, vamos unir esta cidade – afirmou o prefeito eleito.

Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)