quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

E quando menos se espera... o natal

"Happy Xmas” embalando os passeios pelo shopping; portarias, varandas e vegetação urbana iluminadas; comércio borbulhante; congestionamentos nos arredores da Lagoa Rodrigo de Freitas; e o peru no freezer são indícios do irremediável: o natal, companheiros, chegou novamente! ...Ah, O Natal... família reunida, conflitos superados, florescimento do amor e da solidariedade! Pelo menos é essa a perspectiva que a publicidade em nome do sistema procura enfiar-nos goela abaixo.
Ainda que o senso comum concorde que um ano é tempo suficiente para profundas transformações internas no ser humano – ainda mais quando se é jovem -, o natal parece figurar como um eterno flashback. As pessoas envelhecem, o arquivo de memórias incha, mas o natal é sempre o natal de sempre (se me permitem a redundância). Na verdade, acho que os fins de ano são iguais. Seria algo que transcende o elemento “natal”? Fica a indagação. Só sei que o papo no elevador nunca cessa sem o tradicional “mas o tempo passa rápido, em!? Já tâmo no Natal de novo!”. As piadinhas infâmes na ceia do dia 24 então nem se fala: “E aí fulano, que tal o peru – com trocadilho -? Já provou?”
Definitivamente, não precisa ser vidente para saber que os Papais Noéis vão se proliferar pelos shoppings, a rede Globo vai exibir a retrospectiva, o Sérgio Chapelin vai apresentá-la, a missa do galo vai ser transmitida por alguma emissora, você vai dar um troco pro porteiro (se você for o porteiro leia: você vai receber um troco dos moradores), você vai receber uma pancada de presentes inúteis, você vai dar uma pancada de presentes igualmente inúteis, alguém vai estourar uma garrafa de champagne do seu lado no réveillon – provavelmente Sidra -, os fogos iluminarão Copacabana, uma fumaça densa arruinará a visão dos presentes, o São Paulo será o campeão brasileiro e o Fluminense, tal o como o Botafogo, fechará o ano sem títulos. A previsibilidade do fim de ano é realmente assustadora.

E com mais um “natal de sempre” e as esperanças inúteis de um próspero ano novo, deixo algumas considerações acerca do ano que chega ao fim.


Considerações futebolísticas:
- Bom, como de costume, o ano deixou mais uma taça nas mãos do Flamengo. Os fracassos rubro-negros sempre são amenizados por esse fato. O Fluminense finaliza uma temporada sofrível tendo deixado escapar o sonhado título da Libertadores, que ficou nas mãos de Cevallos (bendito atleta!!). O Botafogo chorou muito no início, mas as saídas de Cuca e Túlio dão indícios de que a choradeira cessará. É o que esperamos.
O Corinthians voltou no embalo do peso de sua camisa, que tanto se dedicou à série B que pouco significou na Copa do Brasil perdida para o Sport (Viva futebol de Pernambuco!!). Foi-se o Vasco da Gama para a Segundona. Mas não há motivos para desespero: o vice também sobe.
O São Paulo sagrou-se campeão brasileiro. (Ohhhhh!!) E o Flamengo – campeão estadual – fechou a temporada de forma tenebrosa, arrastando-se em campo quando deveria vibrar. A vaga na Libertadores virou pó frente a pontuação de Cruzeiro e Palmeiras, equipes igualmente atrapalhadas. Mesmo com derrotas pífias das equipes mineira e paulista, o Flamengo conseguiu a façanha de somar mais resultados absurdos e patéticos no campeonato, conseguindo assim a quinta colocação. O empate com o Goiás é simbólico para ilustrar o argumento irônico, mas procedente.

Considerações musicais:
- Depois de 2007 brindar-nos com a vinda do Police e de Waters, 2008 possibilitou a vinda da rainha Madonna. O Maracanã é um palco formidável, sem dúvida. E o show deverá ser um sucesso. O Queen também compareceu. Desmembrado, mas compareceu. Ah! E 2009 já parece chegar brilhantemente com Sr. Elton John na Apoteose. O ingresso já está garantido.
- Deixo uma dica universal: já que é a primeira postagem em que trato das coisas mais genericamente, indico a mais notável obra musical já feita na história da humanidade – “Abbey road” The Beatles. Enjoy it!

Considerações jornalísticas:
- Para quem tem um parafuso a mais, não há nada como a revista Piauí. Fã desde o primeiro exemplar de novembro de 2006, indico duas reportagens que devem ser lidas pelos antenados:
“O caseiro” – edição de outubro 2008 – absolutamente revelador.
“Na rota do Kif” – mesma edição – absolutamente intrigante.
Na verdade toda a edição de outubro deve ser devidamente devorada pelos leitores que se prezem. As férias me possibilitarão a leitura das de novembro e dezembro, já garantidas.
- O jornal “O Globo” tem publicado reportagens no sentido de revelar o caráter civil da ditadura militar. A série começou domingo, dia 7, e deve prosseguir pela semana. Interessante.
- O Jornal do Brasil, apesar do formato que não me agrada, tem mostrado vitalidade. Que bom.

Considerações cinematográficas:
- O ano de 2008 deixou boas coisas no campo da sétima arte. Dentre as mais significativas está a produção da Pixar “Wall.e”. O argumento é interessantíssimo, a execução é brilhante e o robozinho é o máximo. Talvez a melhor das animações desse tipo, dentre as quais também se mostra excelente “Por água abaixo” e “Procurando Nemo”.
- Heath Ledger deixou sua última contribuição. E que contribuição! O Coringa rouba a cena em “Batman – the dark knight”. Pena que o Batman continua sendo interpretado pelo insosso Christian Bale, que não acrescenta nada ao personagem e deixa-o totalmente sem sal. De qualquer forma, a produção é excelente e imperdível. Talvez o melhor filme de super-herói dos últimos anos. O que não quer dizer muito, pois a maioria dessas produções dá um sono...
- Não é preciso que se diga de quem é a direção de “Vicky Cristina Barcelona”. As sutilezas, a ironia e a presença de Scarlett Johansson no elenco não deixam dúvidas: é mais uma obra de Woody Allen. Como de costume, o argumento gira em torno dos relacionamentos. O resultado é um filme excelente. As interpretações de Penélope Cruz e Javier Bardem são notabilíssimas. Este último, aliás, tem ganho bastante espaço em Hollywood. O também imperdível “No country for old men” (Onde os fracos não têm vez) o possibilitou levantar a estatueta de melhor ator coadjuvante no Oscar 2008 pela interpretação de um assassino frio e calculista – realmente assombrosa. Agora, seu personagem é completamente diferente, mas o ator manteve o alto nível.
- Outro artista que terá destaque nas minhas considerações é George Clooney, que protagoniza mais uma super produção este ano. “Burn after reading” (Queime depois de ler) é dirigido pelos irmãos Coen – de “No coutry for old men” – e está gerando bastante badalação. Trata-se de uma comédia bastante divertida. Clooney esteve muito bem em “Michael Clayton” (Conduta de risco), indicado ao Oscar no ano passado, e dirigiu em 2006 o perfeito “Good night and good luck” (Boa noite e boa sorte), imperdível para os estudantes de jornalismo. Em "Burn after reading", no entanto, sua atuação é mais impressionante. Só por ele, o filme já vale a pena. John Malkovich e Brad Pitt ainda compõem o belo elenco. Vale a pena dar um passadinha despretenciosa no cinema.
- As grandes produções ainda estão para chegar, mas das que já passaram por aqui, só me resta falar do sempre badalado 007. “007 – Quantum of solace” é pipoca da melhor qualidade. Não faz pensar muito, mas já que estamos falando de entretenimento, que seja Bom. E é. Não melhor que o arrasador “Cassino royale”, mas diverte bastante. Ah... e eu sou do grupinho dos que aprovam Daniel Craig. Os nostálgicos que me desculpem, mas o 007 do século XXI está em boas mãos. Craig é mais saradão, violento, mas funciona muito bem. Que fique na função por mais alguns anos!
- Ah!!! Tinha me esquecido do melhor. Não deixem de assistir “REC”. Trata-se de uma produção espanhola inovadora, de resultado muito feliz, e arrepiante – não corte o clima e veja no escuro (medida essencial para a degustação da película).

Deixo por fim algumas sugestões mais genéricas:
- Entendam por que Jack Nicholson é Jack Nicholson: “Chinatown” – Roman Polansky; “The shining” (O iluminado) Satnley Kubrick.
- Mudem a vida de vocês assistindo às duas maiores obras-primas do cinema: “American Beauty” (Beleza Americana) Sam Mendes; “Seven” David Fincher.
- Conheçam o Mestre: “Vertigo” (Um corpo que cai); “Psycho” (Psicose) Alfred Hitchcook.
- Apaguem a luz e confiram: “Alien – the 8th passenger” (Alien, o oitavo passageiro) Ridley Scott; “Haloween” John Carpenter; “Jaws” (Tubarão) Steven Spielberg.
- Pensem: “The Matrix” Waschowski brothers.

Feliz natal.

Rafael Gonzalez (r
afael.leme@globo.com)