segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dor, luto, desespero

Quem assistiu “Anti-cristo” nas telonas de cinema nunca mais será o mesmo. Claro que, em alguma instância, todo e qualquer filme nos atinge. Mas têm alguns que ficam. É o caso do mais novo longa de Lars Von Trier, o “melhor diretor do mundo” segundo o próprio.
Antes de mais nada, é necessário explicar que o resultado das filmagens é uma obra fantástica, muito pelo desempenho do casal protagonista vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Ambos estão assombrosos em todos os sentidos.
A peça cinematográfica é estruturada num roteiro intrigante e perturbador. Toda a história se desenvolve a partir de dois pilares. O primeiro e mais óbvio para o espectador: o filho do casal morre ao cair da janela do apartamento enquanto “ele” e “ela” estão fazendo sexo no banheiro (sim, os personagens principais não têm nome). O segundo que é captado no desenrolar dos acontecimentos: “ela”, algum tempo antes da tragédia, escrevia uma tese sobre genocídios femininos no século XVI. Basicamente, esses dois fatos se unem na geração dos piores sentimentos possíveis. “Ela” afunda numa depressão da pior espécie após a morte do filho. E é disso que o filme trata: dor, luto, desespero, culpa e remorso. Tudo o que acontece na história gira em torno e, mais que isso, pode ser explicado por essa proposta. Esses sentimentos estão intrínsecos aos pesadelos, às loucuras e às ações dos personagens. Ah, sim... quando falo em “tudo o que acontece pode ser explicado” estou ressaltando que algumas seqüências não são de fácil compreensão. É preciso unir A com B, B com C e assim por diante. Cada take é mais metafórico que o outro.
A história mais objetivamente: “ele” é terapeuta e resolve dar um basta às doideiras da mulher que se desenvolvem após a morte da criança. Ambos vão ao casebre que possuem no meio de uma floresta (o local é chamado de Éden no filme). “Ela” afirma que trata-se do lugar responsável pelos seus medos e paranóias (foi onde sua tese sobre genocídio foi escrita. Ela estava só no lugar à época, acompanhada apenas do falecido Nick - o filho).
Von Trier, definitivamente, não poupa o espectador. O filme é para quem tem a capacidade de criar um distanciamento saudável do que é visto na tela. Os de estômago fraco não agüentam. Mas isso é mais um fator importantíssimo para que o filme atinja seu objetivo. As cenas “da tesoura” e “da masturbação masculina” são chocantes. Nem “O albergue” consegue ser tão escatológico.
Poucos filmes tratam da tristeza como “Anti-cristo”. Von Trier vai fundo no tema e consegue, de fato, realizar uma obra se não estupenda, impressionante. Muitos aplausos de um amante do cinema, que outrora vibrou ao assistir “Saló” de Pasolini, obra certamente vista pelo diretor de “Anti-cristo”. Ambos imprescindíveis para quem curte a sétima arte.
Rafael Gonzalez

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Por um jornalismo melhor

A queda do diploma de jornalismo gerou muito “bafafá” nas universidades. Pois o que inicialmente parecia algo negativo para mim, acabou se tornando positivo após leve reflexão. Parecia mais um fator contribuinte ao processo de degradação intelectual social. Parecia mais um passo rumo ao tempo em que profissionais de quaisquer áreas serão piores que os que já estão aí. Mas não. Muito pelo contrário.
A desvalorização do diploma é óbvia. Mas a da profissão, nem um pouco. Até porque, ao passo que se busca com a medida, indiretamente, uma melhor formação dos profissionais da mídia, ela não existe. Porque digo isso? A idéia é que tenhamos jornalistas graduados em faculdades “de verdade” como história, sociologia, filosofia, ou qualquer outra que tenha um objeto de estudo mais específico e que suponha contato do aluno com Leitura - com L maiúsculo mesmo. Não podemos continuar nos graduando na base do jornal e da revista. Assim é na Espanha, por exemplo. Não há graduação em jornalismo, mas “pós”. O sujeito se FORMA e depois se especializa.
Do contrário, seremos reféns no futuro de uma mídia realizada por pessoas ignorantes o suficiente para não saberem sequer quem foi Sigmund Freud ou Karl Marx.

Links para minhas matérias publicadas:

http://www.facha.edu.br/publicacoes/jornallab_meier/2008/junho/Pag6e7.pdf

http://www.facha.edu.br/publicacoes/jornallab_meier/2008/abril/Pag12.pdf

http://www.facha.edu.br/publicacoes/jornallab_meier/2008/novembro/Pag12.pdf

http://rafaelmotta.wordpress.com/2008/08/29/o-que-e-pos-punk/

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Já vi esse filme antes


Há coisas que só acontecem com o Botafogo. Ok. Mas deixe eu melhorar a frase. Há coisas que só acontecem com o Botafogo em jogos decisivos, preferencialmente finais. Porque faço esse adendo ao refrão? Trata-se da premissa sustentadora de minha tese.


O futebol está repleto de acontecimentos sobrenaturais. Quem explica o gol de falta de Juninho Paulista na primeira final do estadual 2001? E o do Pet uma semana depois? Aquela bola na gaveta entrou aos 48 e pronto. Foi isso? Tri do Flamengo. Quem explica o caminhão de gols perdidos pelo Botafogo na final de 2007? E o gol do Renato Augsto? Ele nunca tinha acertado um chute daqueles. Acertou ali? Naquela ocasião? Ou pior de tudo, quem explica o jejum de títulos do Botafogo de 2007 a 2009, tendo sido favorito em uma avalanche de competições e eliminado dramaticamente de todas elas? Como assim tomar 3 do River em 8 minutos!! Como aquele chute patético no jogo contra o Figueirense entrou pela falha do goleiro? E os erros de Ana Paula?!? Ah não. Isso não é explicável cientificamente.


Pois a derrota do Flamengo para o Cruzeiro também não. Vocês dirão: "Mas o Flamengo não tem quem faça gol. É ruim no ataque e, portanto, perdeu." Eu digo: "É mais que isso."


Há coisas que só acontecem com o Flamengo em jogos de campeonato brasileiro, preferencialmente no mineirão contra o Cruzeiro, na Vila contra o Santos ou em qualquer estádio da região Sul do país. É impressionante. O Flamengo passeou no primeiro tempo e a bola não entrou. Aos 20 de jogo, quando Fábio impediu com o pé que o pênalti fosse convertido, eu já tinha a certeza: "Ela não vai entrar hoje"... cantei a pedra. Podia chamar o Adriano, o Ronaldo e o Nilmar que ia dar no mesmo.


Contra o Cruzeiro no Mineirão, rubro-negros, não percam tempo. Tirem o dia para dar uma volta no shopping, ou curtam a praia até o fim da tarde. Os mesmos deuses, anjos ou duendes que impedem o Botafogo de vencer o Fla em finais entram em campo, nesse caso, contra o Flamengo.


Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Arte e Radiohead


A taxação, a classificação, a criação de estereótipos e derivados, definitivamente, não funcionam de forma saudável para a produção artístico-cultural de uma maneira geral. Quando se diz que Radiohead é um progressivo eletrônico contemporâneo está se reduzindo o conteúdo da música produzida pela banda a um determinado emaranhado de conceitos. Radiohead é Radiohead. Ouça. Além do que, pressupõe-se que só existem classificações cunhadas previamente ao aparecimento do elemento. Mas não é sobre isso que eu pensava escrever exatamente, afinal também não acho um crime taxar no intuito de tentar entender um determinado objeto: para isso servem os adjetivos. É natural mesmo que se pense assim. Eu também taxo e classifico o tempo todo...

O que tem me intrigado nos últimos anos é a questão da classificação das manifestações musicais, cinematográficas e literárias entre o que é - de fato - artístico e o que não é, sendo este segundo grupo, produto do que se acostumou chamar de indústria cultural. Cada vez mais sinto que é extremamente complicado afirmar que uma obra faça parte do segundo grupo. Exemplo cinematográfico simples:

- Hollywood é vista de uma maneira geral como a maior de todas as indústrias do entretenimento. Logo, nada do que ela produz é artístico – ou em outros termos – nada presta. Nenhum estúdio banca uma produção pouco acessível, concordo. A elaboração de uma obra densa, complexa e de difícil “degustação” torna-se impossível portanto nesse contexto. O que há de artístico em Pasolini não há em produções hollywoodianas. OK. Até aqui, morreu Neves. Mas pergunto: “Beleza americana” de Sam Mendes, ou produções clássicas como “Apocalipse Now” de Coppola ou “2001” de Kubrick não são artísticas? Se não são, o que são? Entretenimento de qualidade? Ah, não. Entretenimento de qualidade é 007. Mas certas produções vão além e ainda assim são bancadas pela indústria. Que tipo de público-alvo, por exemplo, a indústria estipula quando banca “Beleza americana”? ... Ah, e o recente Batman? É só entretenimento de qualidade?

Mudando o foco da discussão, outra coisa que chama atenção são as maneiras de definir qualidades musicais para determinadas bandas de rock. Há quem utilize como parâmetro a complexidade melódica, a profundidade das letras e ao virtuosismo instrumental. Para esses, o progressivo é a nata do gênero e o que veio depois do punk não presta. Outros são mais chegados a uma atitude rebelde, poucos acordes e letras politizadas. Estes execram o progressivo e exaltam o punk. Na verdade, há milhares de análises. Alguns outros parâmetros podem ser usados como a pretensão, tanto positiva quanto negativamente. Na verdade, toda produção para ganhar cartaz seja ela qual for, depende da interação com o ouvinte ou espectador. Os gostos variam e pronto. É isso.

Chega, cansei. Ia escrever sobre o Radiohead e desvirtuei totalmente o assunto. Só pra resumir: Radiohead é a nata do rock pós 1990. Vou além. É a única coisa que presta, salvo raras exceções. E como presta. Não esperava mais a existência de nenhuma banda capaz de mexer comigo até o som deles chegar aos meus ouvidos.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

terça-feira, 10 de março de 2009

A incoerência da ignorância + TV e a polícia


É impressionante a capacidade humana nutrida pela ignorância de interpretar erroneamente. Quando não há a busca por uma fórmula simplista para as situações analisadas, há, simplesmente, uma queda inconsciente nesse tipo de solução menos complexa. Ousaria dizer que trata-se de algo natural ao ser humano, não fosse a existência de alguns poucos cérebros que contrariam a expectativa e alcançam vôos mais altos.

Longe de mim procurar ser o dono da verdade ou observar outros tipos de interpretações de cima para baixo, como se as minhas convicções fossem as corretas. Não se trata disso. A questão que se coloca é: falta capacidade de discernimento, falta sensibilidade, falta a sagacidade necessária para, em alguns casos, observar o óbvio. E o óbvio, muitas vezes, é perceber o quão complexo é o caso. Desculpem a redundância, mas, para me fazer bem claro: notar complexidade, às vezes, é o óbvio, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Isso tudo é o grande problema da democracia. Entendam: não creio em verdades. Apenas me limito a aceitar exclusivamente perspectivas baseadas em argumentações balizadas, coerentes e lógicas. Do contrário, sofro. Sofro ao ver panoramas serem estabelecidos a partir de interpretações absolutamente incoerentes. E, com exceção de raríssimos casos, esse é o quadro que impera na rede sócio-política em que vivemos.

E quando as coisas caminharem de acordo como você pensa, meu caro raro cérebro, não se iluda: o caminho que a maioria tomou para escolher de acordo com sua preferência foi incoerente e sem qualquer lógica...

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Comentário sobre Telejornal regional - RJ.

- A entrevista era com o delegado responsável pelo petralhumento policial em Santa Tereza, um dia depois do assalto em que duas estudantes foram violentadas. A apresentadora pede a palavra e pergunta algo mais ou menos assim: "Senhor delegado, eu como cidadã e jornalista gostaria de saber aquilo que todos os moradores de Sta.Tereza devem estar querendo saber: quando se poderá ter a certeza de que crimes como esse não irão mais acontecer?" ... (fiquei olhando para a TV com um olhar de incerteza, daqueles de alguém que não acredita no que está vendo e ouvindo).

- Notaram algo absurdo, ou eu estou ficando maluco?

- Nessas horas eu queria ser o delegado para responder: "Querida, não sei se você notou, mas eu sou policial, e não mágico, visionário, Deus..." Ora bolas, que tipo de pergunta é essa? Juro que parece cinismo. Custo a acreditar que ela seja inocente a ponto de achar que a polícia poderia garantir isso. Fica parecendo que ela quer mostrar para a população que cobra, que cumpre seu papel social de jornalista, sabem? Ah, faça-me o favor...

- A polícia deve zelar pela segurança da população? Ok, concordo. Mas peraí... ela não pode garantir que um louco não saque uma arma e dispare contra a cabeça de qualquer um no meio da rua. O que ela deve fazer é: tentar estar presente no maior número de lugares possíveis para EVITAR a execução de crimes, além de - no caso destes já terem sido cometidos - pegar e prender os executores. Aliás, foi exatamente isso que o delegado respondeu a ela - de forma educada, claro. A resposta era previsível, óbvia. Porque? Porque a pergunta é, com todo respeito, idiota.

- Isso tudo sem falar que, para qualquer instituição policial no Mundo efetuar sua função social com louvor, há um pré-requisito: o crime deve ser exceção. Ou seja, ainda que a polícia carioca não estivesse corroída pela corrupção, pela ilegalidade e pelo crime, não seria justo apontá-la como fracassada. O problema é muito maior do que isso. Não é só de ordem policial. Pode chamar a SWAT, o Capitão Nascimento, o FBI... não será suficiente.

- Ah... a solução? Esqueçam, meus caros. Ela não é compatível com a estrutura sócio-econômica mundial. O mundo é pequeno demais para as duas...


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

sexta-feira, 6 de março de 2009

And the Oscar goes to...

Na foto: Danny Boyle, o realizador.

“Slumdog millionaire” foi o Papa-tudo da vez na cerimônia do Oscar no último dia 22 de fevereiro. Ainda que não tenha assistido a Frost/Nixon, que estréia hoje nos cinemas brasileiros (Sexta 6/3), já me sinto no direito de emitir uma crítica positiva em relação ao sucesso do filme de Danny Boyle em Hollywood. Ainda que não concorde nem um pouco com as indicações a melhor filme que ignoraram as três melhores produções americanas do ano – Doubt (Dúvida), The wrestler (O lutador) e La boda de Rachel (O casamento de Rachel) -, posso dizer que o prêmio foi merecido.


“Milk” de Gus Van Sant também ganhou um lugarzinho na história de Hollywood. Sean Penn levou a estatueta de melhor ator com méritos. Ainda assim, a belíssima história de Harvey Milk encenada por um elenco que conta com Penn, Josh Brolin e James Franco não precisa de muitos outros acertos. A direção de Van Sant praticamente elimina chances do projeto fracassar. No caso de “Slumdog millionaire” não é bem isso que acontece. A série de acertos da produção é essencial para fazer dela um excelente filme. Não há um diretor consagrado, nem um elenco de peso e nem uma história real que por si só já é emocionante. Por esse motivo, creio haver justiça na premiação - ainda que prefira assistir a um filme como “Milk”.


A estética de direção de Danny Boyle é, no mínimo, pouco tradicional – algo ousado (ele utiliza Flashbacks, tonalidades diferentes em determinadas tomadas e efeitos do gênero). E acerta na mão. O roteiro é de uma originalidade rara. Os problemas que poderiam surgir em função do elenco ser todo composto por locais (atores indianos), são evitados com louvor. Na verdade esse fator passa a ser positivo para o sucesso do filme. A trilha sonora é uma beleza. Em suma, o filme é um acerto só. Frente a “The curious case of Benjamim Button” e “The reader”, no meu ranking, ele leva de lavada.

Quanto às premiações de atriz principal e coadjuvante, só tenho a dizer o mesmo. A premiação de Penélope Cruz era até certo ponto esperada, havendo um pequeno risco de Viola Davis ser a zebra da vez. Mas melhor assim. A espanhola dá show em “Vicky Cristina Barcelona” e já há algum tempo merecia o prêmio. Kate Winslet era barbada. Estrelando duas fortes produções no ano, a atriz não poderia deixar de ser premiada não só pelo desempenho em “The reader” (O leitor), mas pelo conjunto da obra. Até porque performance por performance, creio que Anne Hathaway e Meryl Streep arrasam muito mais em seus respectivos filmes (“Doubt” – Dúvida / “La boda de Rachel” O casamento de Rachel). Heath Ledger eterniza-se na história de Hollywood, finalmente. O James Dean do século XXI... hehehe


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Gostaria de colocar apenas dois pontos em relação a questões cariocas.

1 – A demolição de um estabelecimento alimentício na Gávea, conseqüência do choque de ordem, é envolvida por uma camada de subjetividades assustadoras. Para mim, o que antes era uma dúvida, agora é uma certeza: Rodrigo Bethlem e Eduardo Paes querem por que querem aparecer. Isso pode ser bom... ou não.


2 – A tentativa de assassinato na Niemeyer é absurda (Sim, como tantos outros eventos ocorridos recentemente na cidade, concordo. A vida é cheia de absurdos). Ainda assim, pela milésima vez, voltarei a dizer que enquanto a justiça permitir impunidade para os poderosos – e para os não-poderosos também – o quadro permanecerá aterrorizante como está. Que os órgãos responsáveis pela segurança pública estão corroídos, isto nós já sabemos. Mas enquanto não houver um “choque de ordem” no judiciário, não adianta nem melhorar a polícia. Quero ver quanto tempo esses sujeitos vão ficar presos... E olha que eles são a escória da sociedade – não falo por mim, mas pelo sistema. São, certamente, sujeitos marginalizados e sem quaisquer oportunidades. Mesmo com todas essas considerações, não há motivo para pena. Prisão perpétua – é a única saída que se aproxima um pouco de algo chamado justiça (por sinal, utópico...).

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tudo pode acontecer


Um grande acerto na carreira do narrador João Guilherme do PFC (Premiere Futebol Clube) foi passar a fazer uso da expressão perfeita para o momento em que Obina recebe a bola durante uma partida do Flamengo.

“Lá vem Ibson, virou com Léo Moura, Léo investe no passe longo para Obina (!!!)... e agora: Tudo pode acontecer... Tudo pode acontecer...”. Sua sensibilidade esteve aguçada em algum momento e feita a narração desta forma, a expressão virou sua marca registrada. Obina é um jogador curiosíssimo. Afinal, plagiando o narrador, tudo pode acontecer quando ele pega na bola. O leque de possibilidades vai de um drible sensacional emendado de um golaço a um tropeço bisonho ou algo parecido. Ainda assim, me parece um atleta valiosíssimo para o Flamengo. Sempre marca na hora H, sobressai-se em decisões e, ainda que a grandíssima maioria discorde de mim, tem excelente visão de jogo para passar a bola e posicionar-se. Talvez seus principais defeitos sejam a pouca velocidade e a falta de precisão no cabeceio.




A invencibilidade do Flamengo pouco significa em termos de futuro na temporada. Mas um trunfo que a equipe já mostrou ter é a quantidade de jogadores. Há sempre excelentes peças de reposição no banco e isso pode mudar o rumo de partidas que se mostrem complicadas. Além disso, já é possível estabelecer mais algumas conclusões acerca do time:

1 – Zé Roberto chegou bem. No mínimo, é esforçado, quer jogo.
2 – Willians é promessa das boas.
3 – Jonatas joga demais. Só depende dele para ter uma carreira grandiosa.
4 – Jogador Everton irrita.
5 – Chega de Kléberson. Ninguém agüenta mais. Já deu.

No mais do futebol carioca, o destaque óbvio é Victor Simões. Pode fazer a diferença no campeonato.


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Apenas um comentário cinematográfico para fechar a postagem:

- “Night of the living dead” (A noite dos mortos vivos) de George Romero é o precursor dos filmes de Zumbi. O clássico de 1968 está disponível em DVD na Livraria da Travessa. Ainda que seja um trabalho notável, “Psycho” (Psicose) de Hitchcook se mostra bem mais genial, não somente em termos de elenco e direção, mas também em quesitos técnicos. Este é mais um exemplo da magnitude do trabalho do mestre Alfred. Afinal, “Psycho” é 8 anos mais velho que o filme de Romero.



Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)


sábado, 7 de fevereiro de 2009

The cinema show


Assisti recentemente, pela segunda vez, o premiado filme “Brokeback Mountain” de 2005. Senti-me pressionado a escrever sobre isso. A razão? A produção é uma pérola. É o tipo do filme que você assiste e pensa: “Nada deveria ser melhor. Está perfeito”. A começar pela performance de Heath Ledger que é assustadora (!!!). O cara encarna no personagem. Cada mínimo detalhe em seu olhar, em suas feições, na sua fala é representado de modo perfeito. A direção de Ang Lee é arrebatadora. A história é construída através das tomadas nas montanhas de forma sutil e harmoniosa. A partir do momento em que termina a estadia dos “cowboys” em “Brokeback”, o romance passa a ser contado “aos pulos”, ou seja, de anos em anos, o que, para o cinema, é algo muito difícil de ser feito sem que haja rupturas no rumo dos acontecimentos representados. Em muitos casos, fica parecendo uma concha de retalhos. Não em “Brokeback Mountain”. O andamento permanece sereno e intocável. Toda a obra é amarrada com maestria pela equipe. Trata-se de uma obra-prima. É um absurdo ter perdido o Oscar de melhor filme para o fraco “Crash” em 2006.

A cerimônia do Oscar 2009 será realizada no próximo dia 22 e, nesta última sexta-feira, dia 6, entrou em cartaz no Brasil uma produção que emplacou 5 indicações sendo 4 para ator e atriz principais e coadjuvantes. E já que estou em dia de babar ovo, lá vamos nós de novo.

“Doubt” (Dúvida, na tradução literal) é sensacional. Dos que vi até agora, o melhor filme de 2008 com folga. Ainda que muito de sua qualidade passe pelas performances irretocáveis de Meryl Streep, Philip-Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis, a construção da história e do clima tenso que se faz característico em cada cena são perfeitas. Os diálogos prendem o espectador de forma impressionante e cabe a este buscar em cada vírgula do que é dito indícios que possam acabar com a tal dúvida que envolve a culpa ou inocência de um padre.

Contudo, garanto: de nada adiantará essa investida...


Embalado pela felicidade de assistir a cinemas de qualidade (ainda que “Brokeback” tenha sido na minha TV LG de 20 polegadas e sem tela plana...), resolvi postar algumas listas de favoritos para que meus poucos leitores (além dos pais) possam conhecer melhor meus gostos pessoais. Serão elas: Top 10 para cinema; Top 10 para atores; Top 10 para atrizes; Top 10 para diretores. Por hoje, acho que está bom. Lembro que são escolhas de caráter pessoal, o que me permite, por exemplo (e apenas por exemplo), estabelecer a presença de "Anaconda" no Top de filmes.

TOP CINEMA:
1- American Beauty (Beleza Americana)
2- Seven (Seven, os 7 pecados capitais)
3- Alien (Alien, o 8° passageiro)
4- The Shawshank redemption (Um sonho de liberdade)
5- Good night and good luck (Boa noite e boa sorte)
5- Vertigo (Um corpo que cai)
6- The Bridges of Madison County (Pontes de Madison)
7- Chinatown
8- Brokeback mountain (O segredo de Brokeback mountain)
9- Titanic
10- Psycho
(Psicose)

Menção honrosa:
- The exorcist (O exorcista), um extraordinário clássico do terror.
- Halloween, assustador.
- Jaws (Tubarão), que só pela trilha já valeria.
- The departed (Os infiltrados), que já é um filme policial clássico.
- Matchpoint, cujo tema abordado é intrigante (a sorte, o azar, o acaso).
- Matrix, cheio de metáforas.
- Back to the future (De volta para o futuro), o melhor blockbuster de todos os tempos.
- WALL.E, uma animação imperdível.
- Doubt (Dúvida), o tempo o levará para meu Top 10.


TOP ATORES:
1- Kevin Spacey – pelo Lester Burnham de “American beauty”. A melhor atuação que já vi na história do cinema.
2- Heath Ledger – suas participações em “Brokeback mountain” e “Batman – o cavaleiro das trevas” são impecáveis.
3- Jack Nicholson – o cara.
4- Russel Crowe - por “American gangster”.
5- George Clooney – veja “Michael Clayton” (Conduta de risco) e “Burn after reading” (Queime depois de ler).
6- Sean Penn – cada personagem seu tem um ar diferente.
7- Tim Robins – por “Mistic river”
8- Al Pacino – O “Godfather” depois de Brando.
9- Morgan Freeman – apesar de seus personagens sempre terem características em comum, em alguns filmes, sua fisionomia e seu ar sereno caem como uma luva. Em “Seven” e “The shawshank redemption” está impecável.
10- Phillip Seymour Hoffman – veja “Capote” e “Doubt”.

Menção honrosa:
- Javier Bardem, pelos recentes trabalhos (“No country for old men” / “Vicky Cristina Barcelona”).
- Brad Pitt, não é Só bonitão... é fera na profissão.
- John Malkovich, pelo humor que incorpora em seus personagens.
- Anthony Hopkins, o Hannibal Lecter de “Silence of the lambs”.

TOP ATRIZES:
1- Meryl Streep – unanimidade.
2- Cate Blanchett – referência.
3- Judi Dench – dá uma aula em cada filme que trabalha.
4- Penelope Cruz – sempre rouba a cena nos filmes em que atua.
5- Naomi Watts – dá aula de representação em “Mullholand drive” (Cidade dos sonhos)
6- Kate Winslet – sempre atua com brilhantismo.
7- Helen Mirren – pareceu mais a rainha que a própria.
8- Nicole Kidman – veja “Dogville”.
9- Anne Hathaway – sempre precisa quanto ao tom que deve dar ao personagem.
10- Jodie Foster - pela detetive “caipira” Starling de “Silence of the lambs”

Menção honrosa:
- Kathy Bates, uma coadjuvante sempre perfeita (“Titanic” / “Revolutionary road”)

TOP DIRETORES:
1- Alfred Hitchcook - o mestre.
2- Roman Polansky - de “Chinatown” e “Rosemary’s baby”.
3- Francis Ford Coppola - “Godfather” (O poderoso chefão) e “Apocalipse now” são inesquecíveis.
4- David Fincher – “Seven” é uma obra-prima.
5- Steven Spielberg – pelo conjunto da obra.
6- Ridley Scott – “Alien” é uma aula de direção.
7- Sam Mendes – “American Beauty” leva todos os prêmios na minha academia.
8- Woody Allen – como Spielberg, pelo conjunto da obra
9- Clint Eastwood – realizador de muitas produções no estilo de excelente “Mistic river” (Sobre meninos e lobos)
10- James Cameron – “Titanic” é fantástico. Além disso, dirigiu a impecável continuação de “Alien”.

Menção honrosa:
- Ang Lee, por “Brokeback Mountain”.
- George Clooney, promessa para direção, por “Good night and good luck”


Rafael Leme Gonzalez (
rafael.leme@globo.com)


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Novos rumos estabelecidos por um cocô

Na tarde da última terça-feira, este que vos escreve encaminhava-se na direção de um cinema na Praia de Botafogo, acompanhado da namorada. Eis que um espécime de Columba livia, a ave popularmente conhecida como Pombo, pousou sobre um semáforo. Debaixo deste, caminhava o casal feliz rumo ao seu cineminha. Já dá pra imaginar o que aconteceu em seguida, certo?

Pois bem. O cocô daquele Pombo gerou uma imediata mudança de planos. Deixamos de ir para o cinema naquele instante e pusemo-nos a procurar uma loja que vendesse uma camiseta por um preço “bacana” – seria inviável prosseguir o passeio sem requerer a compra de uma blusa. Em seguida, efetuada a compra num shopping da região, resolvemos ir ao cinema mais próximo, que viria a ser um localizado dentro do próprio shopping. Conclusão: nossas vidas tomaram um novo rumo em função daquele cocô. Certamente, ele será responsável por um aumento ou diminuição de 5, 10 ou até 20 anos no período correspondente ao que permanecerei vivo. Literalmente, aquele cocô não foi pouca merda.

Em “O curioso caso de Benjamim Button”, observa-se uma reflexão idêntica a que está posta nos parágrafos acima. Talvez este tenha sido o ponto mais interessante de um filme badaladíssimo e tecnicamente genial, porém pouco revelador no que diz respeito ao Tempo, tema-matriz da fábula. Além de abordar a questão dos eventos contínuos que nos levam a diversos rumos distintos, o filme aponta para o fato de que não há nada que dure para sempre, mas isso o A-ha já tinha sacado em 1988...* Em suma, o favorito ao Oscar não revela nada de muito profundo. É apenas um belo filme.
De qualquer maneira, o tempo é um conceito intrigante e, talvez, o filme que melhor o tenha digerido é o clássico “Back to the future” de Robert Zemeckis.

Outro dia, vi-me imerso em pensamentos sobre o tema. Algo me intrigava: o sentimento de nostalgia. Comecei a lembrar com saudade de uma série de fases da minha vida. De repente, notei que sentia falta até de fases que não foram tão boas, tipo os períodos de decepção amorosa ou coisa parecida. “Porque diabos!?” – pensei. É muito louco isso. O simples fato de eventos bons ou ruins estarem entrelaçados a um tempo passado é o suficiente para que sintamos falta deles. Notei que sentia falta de muita coisa e calculei o quanto ainda não acontecerá em minha vida que me dê motivos para que sinta mais e mais falta no futuro. Conclui que os problemas físicos na velhice deverão ser os menos problemáticos... Isso tudo, claro, colocada a hipótese de eu chegar à velhice.

Tenho saudade de ser criança. Sinto falta da ingenuidade. Sinto falta do Natal como eu o entendia enquanto criança. Sinto falta de muitas pessoas vivas e mortas. Tenho saudade da sétima série. Sinto falta de tocar guitarra (estou sem amplificador). Sinto falta da Xica, a falecida gata do meu avô. Mas de uma coisa eu sinto muita falta: do tempo em que Ketchup e Mostarda eram colocados naqueles cones de plástico vermelhos e amarelos. Não me importa o quão anti-higiênico aquilo pudesse ser. Nada pode ser pior que esses sachezinhos

* ”There’s never a forever thing”, single do A-ha lançado no Brasil em 1989.


Não deixem de ler a postagem anterior "a realidade nua e crua da existência medíocre" - está mais interessante que esta e foi postada no mesmo dia.


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

A realidade nua e crua da existência medíocre


“Revolutionary Road” (na tradução, “Foi apenas um sonho”) é um daqueles filmes em que você aguarda o desfecho ansiosamente para dar o veredicto final acerca da qualidade da obra sob o seu ponto de vista. É, também, um daqueles que não decepcionam. Seu único pecado é ser tão comparável a “American Beauty”, dirigido pelo mesmo Sam Mendes.

Definitivamente, Mendes gosta de abordar o tema da infelicidade humana-conjugal decorrente da escolha, por parte dos indivíduos “civilizados” em geral, de rumos padronizados para a vida adulta. Em outras palavras e usando uma expressão norte-americana: as obscuridades do American way of life.

A principal diferença entre sua obra-prima “American Beauty” e o excelente “Revolutionary Road” é que, ao contrário do primeiro, o segundo é mais específico, temporalmente falando. A recente produção, protagonizada pelo casal “Titanic” Dicaprio/Winslet, está focada nos anos 50, tempos em que homens botavam dinheiro em casa e mulheres cuidavam das crianças. Os dramas vividos pela família Wheeler giram em torno desse panorama. Ainda assim, muitas semelhanças impedem a dissociação das duas obras. A trilha sonora e a direção das duas produções têm muita coisa em comum.

De qualquer forma, o vencedor do Oscar 1999 não tira o brilho de “Revolutionary Road”. Neste, o “ordinary couple” Frank e April não é tão “ordinary” assim. Tanto é que, percebendo a previsibilidade pela qual suas vidas tomavam rumo e os limites sociais que os rodeavam impiedosamente, resolvem se desfazer de seu patrimônio, angariando assim, fundos para viver uma nova vida em Paris. Seria a realização do desprendimento total daquela vida pacata e miserável, que aparentemente era maravilhosa. Mas a vida logo mostra que nada é tão simples assim.

Os grandes acertos do filme são, além do excelente elenco e intrigante trilha, o vizinho “lunático” vivido por Michael Shannon (indicado ao Oscar 2009 por esse filme), único da vizinhança que encara a dura realidade sem tentar enganar a si próprio, e a abordagem de alguns temas-tabu que ainda são tabus na sociedade atual. Um exemplo é o peso, nas costas de qualquer pai em sã consciência, que o nascimento de um filho gera (uso o termo relativo ao conceito de sanidade em função da maneira pela qual o filme trabalha essa questão – quem assistir, captará a mensagem).


Apesar da temporalidade do filme, o tema na sua génese é atual. Todos nós, seres humanos sociais, vemos, diariamente, nossas escolhas serem pautadas por uma série de fatores que estão acima da nossa efetiva vontade. Somos reféns da sociedade. Ainda que ela nos ofereça uma série de facilidades que os homens das cavernas não tinham como, por exemplo, ir até a esquina e comprar um quilo de carne previamente fatiada, às vezes nos damos conta de que paga-se caro por isso. Nossas mentes eventualmente se interrogam: “Quanto estou disposto a pagar por isso? Não estaria ficando pesado demais?”

Há quem pire. Há quem se entregue ao álcool ou às drogas. Há quem renuncie à vontade de viver. Há também quem não se pergunte sobre esse tipo de coisa. Há quem ligue o “foda-se” para tudo como Lester Burnham, o personagem de Kevin Spacey em “American Beauty”. E há quem aceite as coisas como elas são e continue na mediocridade que é a vida comum como os Wheelers de “Revolutionary Road”. Tanto a história de Burnham, quanto a dos Wheelers não acaba nada bem.

Mas, no fim das contas, alguma história acaba bem?



Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dos recentes "big shows" cariocas, o melhor


Elton John faz questão de apontar para diversas partes da platéia emitindo um “thank you” para cada uma delas, em cada em intervalo entre as canções. O objetivo é claro: demonstrar sua gratidão pela presença do público que, no último dia 19, na Praça da Apoteose, foi de 28 mil pessoas.

No show de abertura, James Blunt mostrou ser um artista e tanto levantando o público na base de uma boa apresentação e de muita agitação – ele chegou a “surfar” em cima do piano. Às 22 horas, Elton John subiu ao palco. As seis primeiras canções executadas serviram para demonstrar a qualidade de sua banda e para o público começar a sentir coceira na garganta, esperando os “hits” imortais. Os primeiros acordes de “Goodbye yellow brick road” geraram, instantaneamente, um coro de gritos e aplausos.

Antes de “Sacrifice” fazer o público – incluindo as gerações mais avançadas – levantar-se nas arquibancadas, ouviu-se uma bela, porém um tanto longa, execução de “Rocket man”. A canção foi arrastada por mais de oito minutos fazendo uma senhora no público – por sinal, minha tia – soltar com bom humor: “Tá bom filho... vamos pra próxima!”

Antes do BIS, o público ainda dançou muito com “Bennie and the Jets” e “Crocodile Rock”, na qual a platéia entoou o refrãozinho clássico imortalizado, no Brasil, pelos Mamonas assassinas. “Skyline pigeon” – uma das favoritas do público brasileiro – foi cantada em coro e “Your song” fechou a magistral apresentação. O público ainda observou, de quebra, uma queima de fogos de artifício do Morro da Coroa por detrás do palco.

Nos últimos dez anos, à altura deste “big show”, no Rio, só mesmo o de Roger Waters na turnê “Dark side of the moon”. Além do fato de as bandas de ambos serem excelentes, um outro motivo é a acústica da Apoteose que se mostra muitíssimo melhor que, por exemplo, a do Maracanã, onde “The Police” e “Madonna” também realizaram bons shows. Ainda assim, Elton John leva o prêmio de melhor show dos últimos tempos pelo monstro, no bom sentido, que é. Compositores à sua altura são poucos.

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Estou em férias. Fevereiro virá acompanhado de muitas postagens.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

1000 a 10: goleada no banho de sangue


A julgar pelo teor das reportagens sobre os recentes conflitos ocorridos no Oriente Médio nos mais diversos veículos de comunicação, pode parecer que a mídia tomou parte a favor dos palestinos – afinal vivemos tempos em que devemos desconfiar de tudo e de todos, vide imprensa norte-americana e sua cobertura da Guerra no Iraque. Mas, dessa vez, a questão é menos complexa. A cobertura tem sido editorialmente negativa em relação às ofensivas de Israel pelo simples fato de que não poderia ser diferente – do contrário, a empresa seria acusada de complacência frente atitudes de caráter assassino. Para deixar ainda mais clara minha posição, emito de forma condensada a maneira como vejo o atual conflito e sua repercussão: Israel tem sido tão sanguinário e inconseqüente, que nem a parte conservadora da mídia resistiu numa cobertura 100% imparcial. Afinal quando é sabido que o número de palestinos mortos é de 1024 contra 10 israelenses, é preciso tomar parte (números divulgados no dia 15 de janeiro-2009).

Quando me refiro à cobertura da imprensa, o faço em função de algumas reflexões que vagueiam em minha mente do tipo: a comunidade judaica é uma organização forte em todo o mundo. Seus membros, portanto, estão presentes no círculo dos poderosos. Esse círculo de poderosos é composto basicamente, no mundo de hoje, por investidores. E os investidores são clientes. E o cliente tem sempre razão. Como todo veículo de comunicação é uma empresa, é preciso estar sempre atento (os estudantes e formados em comunicação sabem bem do que estou falando). Mas como já disse, Israel conseguiu a proeza de perder qualquer aliado. Suas ações tem sido tão absurdas que fica chato até para os EUA apoiarem as ofensivas – foram a única nação que se absteve na votação da ONU em relação a uma possível trégua - cessar-fogo - por parte de Israel (todas as outras foram a favor).

O conflito deixa algumas indagações:

1) Até quando resistirá a cara-de-pau da cúpula executiva de Israel dizendo - entre outras barbaridades – que "não queria" iniciar a ofensiva? ... Ora, então porque o fez?

2) Até que ponto o conflito pode ter ligações com a crise, já que ele, por exemplo, fez subir o preço do petróleo que havia despencado?

3) Alguém ainda acredita na paz entre israelenses e palestinos?

4) Para que serve a ONU?

O argumento israelense para o banho de sangue é: nenhum Estado nacional aceitaria viver sendo bombardeado por mísseis sem responder de forma igualmente violenta. O objetivo, aparentemente, é: acabar com o Hamas. E o próximo desafio começa a aparecer: o Hezbollah. Mas vamos por partes.

Primeiro: essa história dos mísseis não pode ser dada como verdade. O motivo para o estopim do conflito tanto pode ser esse quanto pode ser outro (podem me acusar de teórico da conspiração, mas que a crise econômica parece ter a ver com isso parece...)

Segundo: o que bombardear uma escola, um depósito de material de ajuda humanitária e um prédio da ONU (!?!?) tem a ver com o objetivo da missão que é acabar com Hamas? Porque 1024 pessoas, sendo mais de 300 crianças, foram mortas? Quem responde por isso? Quem lançou esses mísseis? Qual o plano da próxima ofensiva? Esquartejamento de criancinhas palestinas em praça pública? O que esperar dos órfãos sobreviventes? Que eles aceitem e cantem “Imagine” junto aos judeus?

Terceiro, finalizando: por mais que seja sabido que o Hamas é uma organização militar que se infiltra na comunidade civil, o que tem ocorrido não pode ser tolerado. 300 crianças não podem morrer e pronto, dane-se (!). Isso é inadmissível, repugnante, cruel e injusto. A comunidade judaica deveria ter vergonha de seus laços com o Estado de Israel.

Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)