Quem assistiu “Anti-cristo” nas telonas de cinema nunca mais será o mesmo. Claro que, em alguma instância, todo e qualquer filme nos atinge. Mas têm alguns que ficam. É o caso do mais novo longa de Lars Von Trier, o “melhor diretor do mundo” segundo o próprio.
Antes de mais nada, é necessário explicar que o resultado das filmagens é uma obra fantástica, muito pelo desempenho do casal protagonista vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Ambos estão assombrosos em todos os sentidos.
A peça cinematográfica é estruturada num roteiro intrigante e perturbador. Toda a história se desenvolve a partir de dois pilares. O primeiro e mais óbvio para o espectador: o filho do casal morre ao cair da janela do apartamento enquanto “ele” e “ela” estão fazendo sexo no banheiro (sim, os personagens principais não têm nome). O segundo que é captado no desenrolar dos acontecimentos: “ela”, algum tempo antes da tragédia, escrevia uma tese sobre genocídios femininos no século XVI. Basicamente, esses dois fatos se unem na geração dos piores sentimentos possíveis. “Ela” afunda numa depressão da pior espécie após a morte do filho. E é disso que o filme trata: dor, luto, desespero, culpa e remorso. Tudo o que acontece na história gira em torno e, mais que isso, pode ser explicado por essa proposta. Esses sentimentos estão intrínsecos aos pesadelos, às loucuras e às ações dos personagens. Ah, sim... quando falo em “tudo o que acontece pode ser explicado” estou ressaltando que algumas seqüências não são de fácil compreensão. É preciso unir A com B, B com C e assim por diante. Cada take é mais metafórico que o outro.
A história mais objetivamente: “ele” é terapeuta e resolve dar um basta às doideiras da mulher que se desenvolvem após a morte da criança. Ambos vão ao casebre que possuem no meio de uma floresta (o local é chamado de Éden no filme). “Ela” afirma que trata-se do lugar responsável pelos seus medos e paranóias (foi onde sua tese sobre genocídio foi escrita. Ela estava só no lugar à época, acompanhada apenas do falecido Nick - o filho).
Von Trier, definitivamente, não poupa o espectador. O filme é para quem tem a capacidade de criar um distanciamento saudável do que é visto na tela. Os de estômago fraco não agüentam. Mas isso é mais um fator importantíssimo para que o filme atinja seu objetivo. As cenas “da tesoura” e “da masturbação masculina” são chocantes. Nem “O albergue” consegue ser tão escatológico.
Poucos filmes tratam da tristeza como “Anti-cristo”. Von Trier vai fundo no tema e consegue, de fato, realizar uma obra se não estupenda, impressionante. Muitos aplausos de um amante do cinema, que outrora vibrou ao assistir “Saló” de Pasolini, obra certamente vista pelo diretor de “Anti-cristo”. Ambos imprescindíveis para quem curte a sétima arte.
Rafael Gonzalez

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