terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A realidade nua e crua da existência medíocre


“Revolutionary Road” (na tradução, “Foi apenas um sonho”) é um daqueles filmes em que você aguarda o desfecho ansiosamente para dar o veredicto final acerca da qualidade da obra sob o seu ponto de vista. É, também, um daqueles que não decepcionam. Seu único pecado é ser tão comparável a “American Beauty”, dirigido pelo mesmo Sam Mendes.

Definitivamente, Mendes gosta de abordar o tema da infelicidade humana-conjugal decorrente da escolha, por parte dos indivíduos “civilizados” em geral, de rumos padronizados para a vida adulta. Em outras palavras e usando uma expressão norte-americana: as obscuridades do American way of life.

A principal diferença entre sua obra-prima “American Beauty” e o excelente “Revolutionary Road” é que, ao contrário do primeiro, o segundo é mais específico, temporalmente falando. A recente produção, protagonizada pelo casal “Titanic” Dicaprio/Winslet, está focada nos anos 50, tempos em que homens botavam dinheiro em casa e mulheres cuidavam das crianças. Os dramas vividos pela família Wheeler giram em torno desse panorama. Ainda assim, muitas semelhanças impedem a dissociação das duas obras. A trilha sonora e a direção das duas produções têm muita coisa em comum.

De qualquer forma, o vencedor do Oscar 1999 não tira o brilho de “Revolutionary Road”. Neste, o “ordinary couple” Frank e April não é tão “ordinary” assim. Tanto é que, percebendo a previsibilidade pela qual suas vidas tomavam rumo e os limites sociais que os rodeavam impiedosamente, resolvem se desfazer de seu patrimônio, angariando assim, fundos para viver uma nova vida em Paris. Seria a realização do desprendimento total daquela vida pacata e miserável, que aparentemente era maravilhosa. Mas a vida logo mostra que nada é tão simples assim.

Os grandes acertos do filme são, além do excelente elenco e intrigante trilha, o vizinho “lunático” vivido por Michael Shannon (indicado ao Oscar 2009 por esse filme), único da vizinhança que encara a dura realidade sem tentar enganar a si próprio, e a abordagem de alguns temas-tabu que ainda são tabus na sociedade atual. Um exemplo é o peso, nas costas de qualquer pai em sã consciência, que o nascimento de um filho gera (uso o termo relativo ao conceito de sanidade em função da maneira pela qual o filme trabalha essa questão – quem assistir, captará a mensagem).


Apesar da temporalidade do filme, o tema na sua génese é atual. Todos nós, seres humanos sociais, vemos, diariamente, nossas escolhas serem pautadas por uma série de fatores que estão acima da nossa efetiva vontade. Somos reféns da sociedade. Ainda que ela nos ofereça uma série de facilidades que os homens das cavernas não tinham como, por exemplo, ir até a esquina e comprar um quilo de carne previamente fatiada, às vezes nos damos conta de que paga-se caro por isso. Nossas mentes eventualmente se interrogam: “Quanto estou disposto a pagar por isso? Não estaria ficando pesado demais?”

Há quem pire. Há quem se entregue ao álcool ou às drogas. Há quem renuncie à vontade de viver. Há também quem não se pergunte sobre esse tipo de coisa. Há quem ligue o “foda-se” para tudo como Lester Burnham, o personagem de Kevin Spacey em “American Beauty”. E há quem aceite as coisas como elas são e continue na mediocridade que é a vida comum como os Wheelers de “Revolutionary Road”. Tanto a história de Burnham, quanto a dos Wheelers não acaba nada bem.

Mas, no fim das contas, alguma história acaba bem?



Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

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