
A taxação, a classificação, a criação de estereótipos e derivados, definitivamente, não funcionam de forma saudável para a produção artístico-cultural de uma maneira geral. Quando se diz que Radiohead é um progressivo eletrônico contemporâneo está se reduzindo o conteúdo da música produzida pela banda a um determinado emaranhado de conceitos. Radiohead é Radiohead. Ouça. Além do que, pressupõe-se que só existem classificações cunhadas previamente ao aparecimento do elemento. Mas não é sobre isso que eu pensava escrever exatamente, afinal também não acho um crime taxar no intuito de tentar entender um determinado objeto: para isso servem os adjetivos. É natural mesmo que se pense assim. Eu também taxo e classifico o tempo todo...
O que tem me intrigado nos últimos anos é a questão da classificação das manifestações musicais, cinematográficas e literárias entre o que é - de fato - artístico e o que não é, sendo este segundo grupo, produto do que se acostumou chamar de indústria cultural. Cada vez mais sinto que é extremamente complicado afirmar que uma obra faça parte do segundo grupo. Exemplo cinematográfico simples:
- Hollywood é vista de uma maneira geral como a maior de todas as indústrias do entretenimento. Logo, nada do que ela produz é artístico – ou em outros termos – nada presta. Nenhum estúdio banca uma produção pouco acessível, concordo. A elaboração de uma obra densa, complexa e de difícil “degustação” torna-se impossível portanto nesse contexto. O que há de artístico em Pasolini não há em produções hollywoodianas. OK. Até aqui, morreu Neves. Mas pergunto: “Beleza americana” de Sam Mendes, ou produções clássicas como “Apocalipse Now” de Coppola ou “2001” de Kubrick não são artísticas? Se não são, o que são? Entretenimento de qualidade? Ah, não. Entretenimento de qualidade é 007. Mas certas produções vão além e ainda assim são bancadas pela indústria. Que tipo de público-alvo, por exemplo, a indústria estipula quando banca “Beleza americana”? ... Ah, e o recente Batman? É só entretenimento de qualidade?
Mudando o foco da discussão, outra coisa que chama atenção são as maneiras de definir qualidades musicais para determinadas bandas de rock. Há quem utilize como parâmetro a complexidade melódica, a profundidade das letras e ao virtuosismo instrumental. Para esses, o progressivo é a nata do gênero e o que veio depois do punk não presta. Outros são mais chegados a uma atitude rebelde, poucos acordes e letras politizadas. Estes execram o progressivo e exaltam o punk. Na verdade, há milhares de análises. Alguns outros parâmetros podem ser usados como a pretensão, tanto positiva quanto negativamente. Na verdade, toda produção para ganhar cartaz seja ela qual for, depende da interação com o ouvinte ou espectador. Os gostos variam e pronto. É isso.
Chega, cansei. Ia escrever sobre o Radiohead e desvirtuei totalmente o assunto. Só pra resumir: Radiohead é a nata do rock pós 1990. Vou além. É a única coisa que presta, salvo raras exceções. E como presta. Não esperava mais a existência de nenhuma banda capaz de mexer comigo até o som deles chegar aos meus ouvidos.
Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)
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