terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Novos rumos estabelecidos por um cocô

Na tarde da última terça-feira, este que vos escreve encaminhava-se na direção de um cinema na Praia de Botafogo, acompanhado da namorada. Eis que um espécime de Columba livia, a ave popularmente conhecida como Pombo, pousou sobre um semáforo. Debaixo deste, caminhava o casal feliz rumo ao seu cineminha. Já dá pra imaginar o que aconteceu em seguida, certo?

Pois bem. O cocô daquele Pombo gerou uma imediata mudança de planos. Deixamos de ir para o cinema naquele instante e pusemo-nos a procurar uma loja que vendesse uma camiseta por um preço “bacana” – seria inviável prosseguir o passeio sem requerer a compra de uma blusa. Em seguida, efetuada a compra num shopping da região, resolvemos ir ao cinema mais próximo, que viria a ser um localizado dentro do próprio shopping. Conclusão: nossas vidas tomaram um novo rumo em função daquele cocô. Certamente, ele será responsável por um aumento ou diminuição de 5, 10 ou até 20 anos no período correspondente ao que permanecerei vivo. Literalmente, aquele cocô não foi pouca merda.

Em “O curioso caso de Benjamim Button”, observa-se uma reflexão idêntica a que está posta nos parágrafos acima. Talvez este tenha sido o ponto mais interessante de um filme badaladíssimo e tecnicamente genial, porém pouco revelador no que diz respeito ao Tempo, tema-matriz da fábula. Além de abordar a questão dos eventos contínuos que nos levam a diversos rumos distintos, o filme aponta para o fato de que não há nada que dure para sempre, mas isso o A-ha já tinha sacado em 1988...* Em suma, o favorito ao Oscar não revela nada de muito profundo. É apenas um belo filme.
De qualquer maneira, o tempo é um conceito intrigante e, talvez, o filme que melhor o tenha digerido é o clássico “Back to the future” de Robert Zemeckis.

Outro dia, vi-me imerso em pensamentos sobre o tema. Algo me intrigava: o sentimento de nostalgia. Comecei a lembrar com saudade de uma série de fases da minha vida. De repente, notei que sentia falta até de fases que não foram tão boas, tipo os períodos de decepção amorosa ou coisa parecida. “Porque diabos!?” – pensei. É muito louco isso. O simples fato de eventos bons ou ruins estarem entrelaçados a um tempo passado é o suficiente para que sintamos falta deles. Notei que sentia falta de muita coisa e calculei o quanto ainda não acontecerá em minha vida que me dê motivos para que sinta mais e mais falta no futuro. Conclui que os problemas físicos na velhice deverão ser os menos problemáticos... Isso tudo, claro, colocada a hipótese de eu chegar à velhice.

Tenho saudade de ser criança. Sinto falta da ingenuidade. Sinto falta do Natal como eu o entendia enquanto criança. Sinto falta de muitas pessoas vivas e mortas. Tenho saudade da sétima série. Sinto falta de tocar guitarra (estou sem amplificador). Sinto falta da Xica, a falecida gata do meu avô. Mas de uma coisa eu sinto muita falta: do tempo em que Ketchup e Mostarda eram colocados naqueles cones de plástico vermelhos e amarelos. Não me importa o quão anti-higiênico aquilo pudesse ser. Nada pode ser pior que esses sachezinhos

* ”There’s never a forever thing”, single do A-ha lançado no Brasil em 1989.


Não deixem de ler a postagem anterior "a realidade nua e crua da existência medíocre" - está mais interessante que esta e foi postada no mesmo dia.


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

3 comentários:

Anônimo disse...

Quanto mais velho se fica, mais perto da morte se fica. Então começamos a pensar em como seria bom se estivéssemos mais longe da morte - como quando éramos mais jovens. Daí a nostalgia, e a sensação de que mesmo os sofrimentos anteriores eram melhores do que as alegrias de agora. Mas isso não é um sentimento necessariamente negativo. Só teme a morte quem ama a vida e sabe que ela é a melhor coisa que temos.

Unknown disse...

É interessante essa crônica, pois achei a cena a melhor coisa do filme, apesar de ser realmente um belo filme. Também percebi que certos acontecimentos inesperados (bons e ruins) nos movem para direções que jamais pensaríamos poder percorrer. Assim, perder é ganhar e vice-versa, sempre. E quase nada é eterno, só amor de mãe... Chupa essa manga! hehehehehe

Anônimo disse...

"...Tenho saudade de ser criança. Sinto falta da ingenuidade. Sinto falta do Natal como eu o entendia enquanto criança. Sinto falta de muitas pessoas vivas e mortas. Tenho saudade da sétima série. Sinto falta da Xica, a falecida gata do meu avô..."

Ei!? O que é isso?? Tu tá parecendo eu quando tô bêbado no Jason!! Acho que no meu caso, na porta dos 50, se justifica algum saudosismo ou nostalgia dos anos passados nas décadas de 70 e 80quando eu estava no auge da juventude... mas você? Sua vida ainda nem começou!! Bola pra frente e esquece a melancolia!!


”...There’s never a forever thing, single do A-ha lançado no Brasil em 1989..."

Por conta da vinda do A-ha no Brasil, ontem tive uma conversa acalorada com um colega do meu plantão que disse algo do tipo:

"... o A-ha é legal... mas toda aquela musiquinha feita no teclado Cassio... o cara faz tudo ali: bateria, baixo, etc. Eu vou ver o Iron Maiden..."

Só que ele nunca pôs as mãos num teclado Cassio. Ele nem conhece música. Portanto suas palavras são a repetição de leituras passadas. Injustamente criou-se esse mito estúpido de que tudo que é POP é lixo descartável e tudo que o ROCK é inteligente, rebelde e socialmente relevante.

Em outras décadas pode ter sido assim, mas o rock, há muito, já foi domado pelo sistema e hoje não passa de um raivoso e enfurecido leão faminto devidamente preso pela coleira.

As pessos não entendem sintetizadores e acham que é só sair apertando botões para se ter uma linha de baixo pronta tocando sozinha.

Nos anos 80 a revolução digital propiciou o aparecimento de dezenas de sintetizadores diferentes. Nem tudo é feito num Cassio. Aliás NADA é, de tão rústico que ele era.

Na Inglaterra, na época, qualquer músico sabia que grupos POP que se utilizavam dessa tecnologia (A-ha, Kate Bush, Naked Eyes, Peter Gabriel, Thomas Dolby, Swing Out Sister, Soft Cell) eram tão bons quanto qualquer outro de ROCK. O preconceito vinha da imprensa musical, a qual alastrou esses mitos incorretos do tipo :

...Se o cara toca (realmente) um instrumento, então ele é músico. Se o cara "programa", então ele é não saca de música, fica na mão da tecnologia...

Isso não é verdade e basta ver a estrutura musical (harmonia) de THERE'S NEVER A FOREVER THING, OUT OF THE BLUE COMES GREEN, HUNTING HIGH AND LOW, LIVING A BOY'S ADVENTURE TALE, THE BLUE SKY ou TAKE ON ME do A-ha ou BEING BORING do PET SHOP BOYS que dão de mil a zero em GOD SAVE THE QUEEN do SEX PISTOLS (que tem o décuplo da credibilidade do Pet ou A-ha)

EL COCO