terça-feira, 10 de março de 2009

A incoerência da ignorância + TV e a polícia


É impressionante a capacidade humana nutrida pela ignorância de interpretar erroneamente. Quando não há a busca por uma fórmula simplista para as situações analisadas, há, simplesmente, uma queda inconsciente nesse tipo de solução menos complexa. Ousaria dizer que trata-se de algo natural ao ser humano, não fosse a existência de alguns poucos cérebros que contrariam a expectativa e alcançam vôos mais altos.

Longe de mim procurar ser o dono da verdade ou observar outros tipos de interpretações de cima para baixo, como se as minhas convicções fossem as corretas. Não se trata disso. A questão que se coloca é: falta capacidade de discernimento, falta sensibilidade, falta a sagacidade necessária para, em alguns casos, observar o óbvio. E o óbvio, muitas vezes, é perceber o quão complexo é o caso. Desculpem a redundância, mas, para me fazer bem claro: notar complexidade, às vezes, é o óbvio, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Isso tudo é o grande problema da democracia. Entendam: não creio em verdades. Apenas me limito a aceitar exclusivamente perspectivas baseadas em argumentações balizadas, coerentes e lógicas. Do contrário, sofro. Sofro ao ver panoramas serem estabelecidos a partir de interpretações absolutamente incoerentes. E, com exceção de raríssimos casos, esse é o quadro que impera na rede sócio-política em que vivemos.

E quando as coisas caminharem de acordo como você pensa, meu caro raro cérebro, não se iluda: o caminho que a maioria tomou para escolher de acordo com sua preferência foi incoerente e sem qualquer lógica...

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Comentário sobre Telejornal regional - RJ.

- A entrevista era com o delegado responsável pelo petralhumento policial em Santa Tereza, um dia depois do assalto em que duas estudantes foram violentadas. A apresentadora pede a palavra e pergunta algo mais ou menos assim: "Senhor delegado, eu como cidadã e jornalista gostaria de saber aquilo que todos os moradores de Sta.Tereza devem estar querendo saber: quando se poderá ter a certeza de que crimes como esse não irão mais acontecer?" ... (fiquei olhando para a TV com um olhar de incerteza, daqueles de alguém que não acredita no que está vendo e ouvindo).

- Notaram algo absurdo, ou eu estou ficando maluco?

- Nessas horas eu queria ser o delegado para responder: "Querida, não sei se você notou, mas eu sou policial, e não mágico, visionário, Deus..." Ora bolas, que tipo de pergunta é essa? Juro que parece cinismo. Custo a acreditar que ela seja inocente a ponto de achar que a polícia poderia garantir isso. Fica parecendo que ela quer mostrar para a população que cobra, que cumpre seu papel social de jornalista, sabem? Ah, faça-me o favor...

- A polícia deve zelar pela segurança da população? Ok, concordo. Mas peraí... ela não pode garantir que um louco não saque uma arma e dispare contra a cabeça de qualquer um no meio da rua. O que ela deve fazer é: tentar estar presente no maior número de lugares possíveis para EVITAR a execução de crimes, além de - no caso destes já terem sido cometidos - pegar e prender os executores. Aliás, foi exatamente isso que o delegado respondeu a ela - de forma educada, claro. A resposta era previsível, óbvia. Porque? Porque a pergunta é, com todo respeito, idiota.

- Isso tudo sem falar que, para qualquer instituição policial no Mundo efetuar sua função social com louvor, há um pré-requisito: o crime deve ser exceção. Ou seja, ainda que a polícia carioca não estivesse corroída pela corrupção, pela ilegalidade e pelo crime, não seria justo apontá-la como fracassada. O problema é muito maior do que isso. Não é só de ordem policial. Pode chamar a SWAT, o Capitão Nascimento, o FBI... não será suficiente.

- Ah... a solução? Esqueçam, meus caros. Ela não é compatível com a estrutura sócio-econômica mundial. O mundo é pequeno demais para as duas...


Rafael Leme Gonzalez (rafael.leme@globo.com)

Um comentário:

Anônimo disse...

O delegado deve ser responsável mesmo pelo "petralhumento", como vc falou: é o patrulhamento feito por jumentos, hahaha. Sobre a pergunta da colega, vá se acostumando. O nível é esse mesmo. Há quem sequer consiga perguntar. Como já te disse, se vc tiver jogo de cintura e gana de vencer, vc vai muito longe.